Washington, 14 (AE) - As feridas deixadas entre a Europa - especialmente a Alemanha - e os Estados Unidos pela recente crise da sucessão no comando do Fundo Monetário Internacional podem dificultar um acordo entre os países ricos sobre as reformas das políticas de crédito da instituição. Essas reformas
que ocuparão toda a agenda da reunião de domingo do Comitê Financeiro e Monetário Internacional (CFMI) - o antigo comitê interino do FMI -, serão discutidas amanhã pelos ministros das Finanças das sete principais potências industrializadas, o Grupo dos Sete.
O debate, que começou com as críticas ao papel do FMI durante a crise financeira da ásia, no final de 1997, será marcado, neste fim de semana, por grandes protestos de rua contra a própria existência do Fundo. A discussão de amanhã do G-7, que detêm o controle efetivo do FMI, é sobre como melhor equipar a instituição para prevenir crises financeiras nos 182 países membros, como remediá-las rapidamente quando ocorrem e como evitar que as nações se tornem dependentes da ajuda do FMI.
Sob pressão do Congresso dos Estados Unidos e de setores da opinião pública americana para mostrar resultados, o secretário do Tesouro, Lawrence Summers, tentará conseguir apoio das outras seis grandes potências industrializadas (Japão, Alemanha, França
Itália, Inglaterra e Canadá), para algumas propostas radicais de mudança tanto das linhas de crédito do FMI como do processo de escolha do diretor-gerente da instituição.
As propostas de Summers na área financeira são parte de uma estratégia que ele anunciou em dezembro passado para estabelecer uma divisão de trabalhos mais clara entre o FMI e o Banco Mundial e fazer o Fundo concentrar-se nas tarefas para as quais foi criado, ou seja, a supervisão das políticas macroeconômicas e a intervenção nas crises de balanço de pagamentos com o objetivo de estabilizar a situação e devolver a saúde financeira aos países no menor prazo possível. Para evitar que os governos se tornem clientes habituais do FMI, o Tesouro quer que as taxas de juros dos empréstimos da instituição aumentem proporcionalmente à duração de seus empréstimos. Assim, quando mais tempo um país depender do dinheiro do Fundo, mais pagará.
Ao mesmo tempo, Summers proporá a redução das taxas de juros e uma maior facilidade de acesso a uma nova linha de crédito chamada Programa de Financiamento Contingente (CCL, na sigla em inglês). Ela foi criada em 1998 com o objetivo de proteger os países que seguem políticas econômicas aprovadas pelo FMI contra o efeito de contágio de crises provocadas por razões fora de seu controle. Os países elegíveis precisam pré-qualificar-se. Mas nenhum governo interessou-se até agora porque os desembolsos da CCL não são automáticos e requerem o cumprimento de uma série de outras condições.
A proposta de Summers de dar maior automaticidade de acesso à CCL aos países que se pré-qualificarem tem o apoio do Brasil e de outros países em desenvolvimento. Mas não conta com a simpatia de alguns governos europeus, a começar pelo da Alemanha. O Bundesbank, o banco central alemão, por exemplo, quer que o acesso dos países à CCL esteja de alguma forma vinculado a um esquema que obrigue os credores privados dos países a participar de operações de socorro em momentos de crise
reescalonando seus créditos ou até permitindo aos governos suspender temporariamente os pagamentos. O Tesouro teme que qualquer tentativa de criar um mecanismo formal para forçar a participação dos credores privados produzirá efeito oposto ao desejado. Por essa razão, prefere que isso seja feito caso-a-caso, como ocorreu até agora com a Romênio, a Ucrânia, o Paquistão e, mais recentemente, o Equador.
Os americanos devem resistir também a uma proposta européia de regulamentação direta dos fundos de hedge, que agravaram a crise asiática. O Tesouro não minimiza esse fato, mas propões que a vigilância seja feita de forma indireta, obrigando os bancos a informar periodicamente quanto tem investido nos fundos de hedge.
Summers deve propor, também, a criação de um novo mecanismo de escolha do diretor-gerente do FMI, com a seleção de candidatos potenciais feita por uma comissão especial e não mais decida a portas-fechadas pelos governos europeus, que tradicionalmente nomeiam o chefe do FMI. Os americanos dizem que esse esquema não impediria um europeu de continuar a ocupar o posto máximo da administração do FMI no futuro, mas abriria o processo de seleção à participação dos países em desenvolvimento e daria maior legitimidade ao escolhido. Essa é uma discussão delicada.
A sem-cerimônia com que o Tesouro barrou a candidatura do primeiro candidato apresentado pela Europa, o vice-ministro das Finanças da Alemanha Caio Koch-Weser, em fevereiro passado, deixou um grande ressentimento, sobretudo em Berlim. Um outro alemão, Horst Koehler, acabou sendo eleito e assume o posto no mês que vem. Em parte para compensar a humilhação pública a que Koch-Weser foi submetido, o chanceler da Alemanha, Gehard Schroeder, ampliou recentemente suas atribuições, dando-lhe também a responsabilidade de preparar a participação de seu país nas reuniões do G-7.
Oficialmente, os europeus dizem que não permitirão que a frustração criada pelo veto americano a Koch-Weser contamine o clima da reunião.
Mas, a portas fechadas, admitem que as emoções despertadas pelos episódio estão ainda à flor da pele e que elas influenciarão a discussão, sobretudo se Summers insistir em fazer sua preleção habitual aos demais ministros sobre a necessidade de a Europa e o Japão adotar reformas econômicas liberalizantes inspiradas no modelo de crescimento com estabilidade dos EUA.

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