Tensão entre a China e o Ocidente Do correspondente GILLES LAPOUGE
Paris, 20 (AE) - "A coisa está esquentando" uma vez mais no estreito de Formosa, esse braço de mar que separa a enorme China comunista (continental) da Ilha de Taiwan (22 milhões de habitantes): Taiwan, onde comandam os herdeiros da China nacionalista de Chan Kaishek. Pequim acaba de declarar "zona de guerra" sua região ocidental de Lanzhou, onde estão suas bases de mísseis intercontinentais.
A ameaça chinesa dirige-se ao mesmo tempo contra Taiwan e contra os Estados Unidos. Relembremos a origem destes novos "preparativos bélicos" no estreito de Formosa: Lee Teng Hui, presidente de Taiwan, declarou que as relações entre a China comunista e a ilha de Taiwan devem seguir o modelo das relações "entre Estados". Em poucas palavras, Taiwan não quer ser tratada como "uma província" subordinada a um poder central situado em Pequim. Naquele dia, Lee Teng Hui pôs um fim à doutrina "de uma China única" que até então regia as relações entre os dois pedaços da China.
Pequim reagiu: manobras, ameaças... E, como por ocasião das anteriores advertências a Formosa, Washington se colocou ao lado de Taiwan (em 1996, o Pentágono despachou dois porta-aviões, o Nimitz e o Independence para a região), a China comunista fez uma forte advertência aos norte-americanos: segunda-feira passada, Pequim testou um míssil "Dong Feng 31", com alcance de 8.000 quilômetros, portanto capaz de atingir os Estados Unidos.
Hoje, novo alvoroço em Pequim: "A China" - diz a revista Haunqiu Shibao, do Comitê Central do Partido Comunista - "concluiu todos os preparativos para um recurso à força contra Taiwan". E o jornal do Exército acrescentou: "O Exército Popular de Libertação está pronto para esmagar qualquer tentativa de dividir a mãe-pátria".
Pior ainda: A revista Huanqiu Shibao ironiza os norte-americanos: "As bombas de nêutrons da China são mais do que suficientes para acabar com os porta-aviões norte-americanos!" Houve tantas comédias desse tipo, no decorrer dos anos, que a gente sente a tentação de sorrir. Mas, desta vez, a China, que já engoliu Hong Kong e Macau, poderia efetivamente querer tragar Taiwan, tanto mais que o clima interior da China é desagradável e difícil.
Em todo caso, os Estados Unidos levam isso a sério. No dia 6 de agosto, Washington assinou um acordo com o Japão de partilha tecnológica em matéria de defesa anti-míssil no valor de 3 bilhões de francos em seis anos. E no Congresso norte-americano, está sendo esboçada uma ofensiva destinada a instalar no Japão, contra a Coréia do Norte, e também em Taiwan, contra a China, um escudo de mísseis anti-míseis.
A França ouve com preocupação este "barulho de botas". Segundo a avaliação francesa, ao responder aos desafios chineses
os Estados Unidos podem empurrar a China a modernizar seu arsenal balístico. Toda a ásia corre o risco de ser arrastada nesta "escalada" balística e poderia surgir um confronto entre dois blocos: de um lado, os Estados Unidos, o Japão e Taiwan. Do outro, a China, a Coréia do Norte e a Rússia (nestas controvérsias estratégicas, a Rússia assume o partido da China comunista). O que Paris teme é que as manobras de Pequim e de Taiwan e o aperfeiçoamento dos arsenais tenham como resultado lançar o mundo numa nova "Guerra Fria", não mais contrapondo o império soviético ao Ocidente, mas a China ao Ocidente. Afirma-se que esta foi a análise feita na semana passada pelo ministro das Relações Exteriores da França, Hubert Védrine, numa carta à secretária de Estado norte-americana , Madeleine Albright.
O jornal Le Figaro registrou uma frase de um assessor de Jacques Chirac: "Nesta questão, nós estamos ao lado da China. Os mísseis anti-mísseis americanos reduzirão a nada a defesa chinesa e lançarão uma corrida permanente entre a espada e o escudo".
Com certeza, os especialistas franceses acham que toda essa gesticulação se explica por razões diferentes: a China tenta distrair seu povo de suas atuais dificuldades. E o Pentágono americano estaria buscando um inimigo chinês a fim de poder desenvolver a indústria militar americana. Mas, acrescentam os especialistas, estas operações de propaganda são perigosas: começam como comédias e às vezes terminam em dramas".





