O segundo-tenente Wlamir Luz Machado apontou ontem pelo menos 18 irregularidades cometidas durante as abordagens dos ex-PMs acusados no episódio da favela Naval, ocorrido em março de 1997, em Diadema (Grande São Paulo).
O depoimento de Machado foi dado no terceiro dia do julgamento do ex-PM Otávio Lourenço Gambra, o Rambo, que está previsto para terminar hoje. Gambra é o primeiro do grupo de dez acusados a ser julgado pela Justiça comum. Oito dos ex-PMs, incluindo Gambra, já foram condenados pela Justiça Militar.
Gambra está sendo julgado no Tribunal do Júri de Diadema pela morte do conferente Mário José Josino, por três tentativas qualificadas de homicídio e por 12 abusos de autoridade.
Machado, testemunha arrolada pela acusação, era um oficial que fazia parte do comando do 24º Batalhão, em Diadema, ao qual pertenciam os ex-PMs processados. O tenente afirmou que as operações filmadas por um cinegrafista nos dias 3, 5, 6 e 7 de março eram ‘‘irregulares , pois não tinham sido comunicadas ao comando do batalhão e ao Copom (Centro de Operações da Polícia
Militar).
O promotor José Carlos Blat foi exibindo a fita bruta da gravação da operação para que o tenente apontasse as irregularidades. As principais deturpações da operação, segundo o oficial, foram: os policiais terem agido com violência sem que as vítimas fossem agressivas, Gambra ter dado um tiro em direção ao carro, mesmo alegando advertência e pelo menos quatro PMs terem armas clandestinas na cintura. ‘‘Mesmo que o civil tivesse sido agressivo, ele deveria ter sido conduzido à delegacia, não espancado , disse o oficial. A testemunha também falou sobre a ‘‘inversão de comando, se referindo às cenas em que Gambra, um soldado, aparece liderando as ações na favela. O advogado de Gambra, Gamalher Corrêa, tentou desqualificar as vítimas da operação.
A defesa apresentou a testemunha Angela Maria Solazzo, 43 anos, que morou na favela. Segundo ela, ‘‘o tiro que matou Josino foi dado por um traficante e não por um PM’’. O promotor José Carlos Blat perguntou se ela tinha visto esse tiro e a testemunha respondeu: ‘‘Eu não vi nada.’’ Blat classificou de ‘‘imprestável’’ o depoimento.

mockup