Para os evangélicos, os cultos nos templos podem representar mais do que purificação espiritual. Nos encontros semanais e nas conversas com os pastores, os fiéis passam, mesmo inconscientemente, por uma espécie de terapia. Os pastores, seguindo os preceitos religiosos, aconselhando e apontando caminhos da salvação agem como psicólogos da alma, transformando os bancos das igrejas em divãs coletivos. Mas até que ponto isto é bom?
O psicanalista Mauro Neiches, autor de ‘‘A Travessia do Trágico em Análise’’, concorda que este processo tem realmente efeitos transformadores, porém, enquanto forma terapêutica é um pouco autoritário. ‘‘O que acontece nestas igrejas é que os problemas apresentados pelos fiéis são tratados sempre da mesma forma. Observa-se uma generalização nos conselhos transmitidos pelos pastores’’, explica. ‘‘Analiticamente falando, isso é um absurdo.’’ Neiches exemplifica este raciocínio citando o alcoolismo. O problema existe da mesma forma para várias pessoas, mas o que levou este indivíduo ao vício é que vai determinar a indicação terapêutica.
‘‘Não consigo passar muito tempo sem ir à igreja. Quando vou aos cultos, parece que saio renovada. É como se deixasse lá todos os problemas que me afligem’’, relata a empregada doméstica Conceição Maria Pereira, 33 anos, que há dois anos frequenta a Igreja Internacional da Graça de Deus, de São Paulo. ‘‘Falar sobre situações problemáticas e ter uma testemunha disso já é, por si só, um ato de alívio. Freud e Lacan abordaram a antropologia das massas artificiais (a igreja e o exército, por exemplo) há muito tempo em suas obras. Ou seja, esta é a função inicial de um terapeuta e a igreja capitaliza muito bem isso. O problema é que a pessoa chega num templo, consegue ter um alívio de fato e toma aquele ensinamento como única maneira de solucionar seus conflitos’’, ressalta.
Na opinião do psicanalista, neste aspecto a Igreja Católica apresenta um certo diferencial. ‘‘A teologia católica é bem mais complexa e estabelece com o fiel um diálogo íntimo, com mais pormenores e nuances. Ela induz à reflexão’’, frisa. Para a telefonista Lourdes da Silva, 40 anos, o ato de confessar-se com o padre ‘‘proporciona uma paz enorme’’. ‘‘É uma maneira de dividir meus problemas num momento de angústia. Muitas pessoas, inclusive, só procuram o confessionário quando se encontram numa situação difícil. Ultimamente, porém, tenho preferido dividir meus problemas direto com Deus’’, ressalta Lourdes.

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