Tempestade arrasa plantações em Ijuí
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 26 de janeiro de 2000
Por Sérgio Bueno 
Ijuí, SP, 26 (AE) - O cenário é desolador. A tempestade que arrasou plantações inteiras na região de Ijuí, no noroeste gaúcho, substituiu o verde da soja e do milho já bem desenvolvidos pelo marrom do solo quase nu. O granizo e o vento de 100 quilômetros por hora causaram prejuízos para grandes e pequenos produtores e liquidaram com o trabalho de mais de quatro meses de plantio e desenvolvimento das culturas.
Casas e galpões semidestruídos e árvores derrubadas serviram também para jogar no chão as esperanças dos agricultores que já lutavam contra a estiagem e a falta de dinheiro para plantar. Em Augusto Pestana, 13 quilômetros ao sul de Ijuí, três pessoas foram hospitalizadas com ferimentos porque estavam trabalhando nas lavouras na hora da tempestade, que não durou mais do que meia hora. Em Jóia, 20 quilômetros mais abaixo, a torre da Igreja de São Pedro foi arrancada pelo vento.
Ademar Baiotto, 48 anos, perdeu 80 hectares de soja no recém-emancipado município de Doutor Bozano, dez quilômetros ao norte de Ijuí. "Sobraram oito hectares, numa área mais afastada", disse. Ontem (25) ele dedicou o dia à reconstrução de telhados e paredes de galpões e galinheiros que tinham sido destruídos. Sob efeito de calmantes, o produtor contou que plantou com recursos próprios e, portanto, está fora da cobertura do Proagro. Por baixo, seu prejuízo no campo chegou a R$ 16 mil. Os 80 hectares vão ficar parados até o início da semeadura de trigo, no início do inverno. O herbicida aplicado não permite o plantio da safrinha de milho no local.
Lourenço Francisconi, 32 anos, também de Doutor Bozano, perdeu seus 20 hectares de soja que estavam começando a se desenvolver depois de alguns dias alternados de chuva nas últimas semanas. "Vou fazer uma loucura e plantar tudo de novo porque ainda tenho sementes", afirmou. O prazo indicado para plantio do produto encerrou em dezembro. "Em 15 anos de lavoura nuncas vi nada igual; duas nuvens se juntaram e as pedras começaram a cair", disse o produtor. Por sorte, sua casa não foi atingida e o prejuízo limitou-se aos R$ 4 mil aplicados na lavoura. Deste dinheiro, R$ 1,5 mil vieram do Pronafinho e o restante de economias constituídas ao longo dos últimos anos.
Em Augusto Pestana, três hectares de pés de milho com mais de um metro de altura plantados por Nelson Lampert, 51 anos, foram liquidados. Nem as dez cabeças de gado do produtor aceitam os grãos que sobraram, moídos, como ração. "O milho congelou e agora azedou", disse. De acordo com ele, o granizo formou uma camada de gelo de até 30 centímetros de espessura. Lampert também perdeu os cinco hectares de soja que já estavam em fase de floração, mas como a área era financiada ele espera receber alguma cobertura do Proagro.
Os telhados da casa onde mora com a família de cinco pessoas e do galpão voaram e vidros foram estilhaçados. Só para pagar esses reparos, já feitos, ele vai precisar de quase R$ 1 mil. Agora o produtor pretende plantar um pouco de milho safrinha para ração e ainda alguma coisa de feijão para o sustento da família, "se vier alguma verba para ajudar".
O problema é que o saco de semente de milho, que no início da safra saía por R$ 38,00 agora está perto de R$ 100,00, revelou. "Agora vão nos matar". Um olhar ao redor da casa de Lampert dá uma idéia do que foi a violência da tempestade de segunda-feira. árvores até então frondosas estão sem uma folha sequer. Um abacateiro foi quebrado e as frutas se espalham por alguns metros. O fornecimento de energia só foi restabelecido ontem (25) à tarde, quase 24 horas após a tempestade.


