Temendo 'genocídio', Xanana pede força de paz
Dili, 04 (AE-AP) - Horas depois da divulgação do resultado do plebiscito em Timor Leste, com 78,5 % dos votos a favor da independência da Indonésia, as autoridades anunciaram neste sábado (04) que libertarão quarta-feira o líder rebelde timorense José Alexandre "Xanana" Gusmão, de 53 anos, atualmente sob prisão domiciliar em Jacarta, e o conduzirão a Dili, capital da ex-colônia portuguesa. Ele será solto uma semana antes do previsto e ficará sob proteção da Organização das Nações Unidas (ONU).
O governo tomou hoje a inusitada iniciativa de autorizar Gusmão a dar uma entrevista coletiva, na qual comentou a vitória e condenou o domínio indonésio sobre o território.
Timor Leste foi ocupado pela Indonésia em 1975 e anexado ao seu território em 1976, na condição de província. Gusmão pediu que a ONU envie com urgência uma força de paz internacional ao Timor e previu um "novo genocídio" desencadeado pelos grupos antiindependência.
Funcionários da ONU e analistas políticos também temem que o resultado provoque um banho de sangue no território, uma vez que as milícias favoráveis à permanência dos laços com Jacarta intensificaram na última semana os ataques aos independentistas e a funcionários da ONU.
Logo após a divulgação da vitória dos separatistas, na manhã de hoje, bandos armados saíram pelas ruas das principais cidades atacando opositores e equipes das Nações Unidas, sem que as forças indonésias agissem para impedir a violência. Os militares da Indonésia são acusados de armar as milícias.
Um observador das Nações Unidas levou um tiro no estômago em Liquica, a 30 quilômetros de Dili, e foi trasladado para um hospital na Austrália. A organização retirou seu pessoal das cidades de Los Palos e Same após sofrer ataques de milicianos.
Dia histórico - Os resultados foram divulgados pelo secretário-geral da ONU, Kofi Annan, em Nova York, e simultaneamente em Dili, por funcionários da organização. Apenas 21,5% dos 450 mil eleitores apoiaram a proposta do governo de manutenção do território como província com ampla autonomia. Mais de 98% dos cidadãos com direito a voto compareceram às urnas.
"Este dia será eternamente lembrado como o dia da libertação nacional", exultou Gusmão, passando em seguida a condenar o domínio indonésio nos últimos 25 anos e a responsabilizar as autoridades do país pela onda de violência em Timor Leste. "Não há boa vontade para deter a violência", afirmou o dirigente.
"A arrogância da Indonésia não deve impedir a comunidade internacional de tomar medidas imediatas para evitar a destruição, o caos e a morte."
Líder do movimento guerrilheiro pró-independência, Gusmão foi condenado inicialmente à prisão perpétua, pena depois comutada para 20 anos de prisão, dos quais cumpriu quase sete em Jacarta. Gusmão é venerado em Timor Leste e é praticamente certo que, caso a independência se consolide, ele se torne o primeiro presidente do futuro país.
O resultado do plebiscito tem de ser ainda ratificado pela Assembléia Consultiva Popular (MPR), o corpo legislativo indonésio. A MPR vai iniciar suas sessões em novembro, quando também deverá eleger o novo presidente do país.
A candidata mais votada nas eleições parlamentares - e potencial sucessora do presidente B. J. Habibie -, Megawati Sukarnoputri, declarou hoje estar "muito triste" e "preocupada" com o resultado, principalmente por causa do "problema dos refugiados".
O secretário de Estado indonésio, Muladi, informou que o governo enviará amanhã a Dili um grupo de altos ministros, incluindo o chefe das Forças Armadas, general Wiranto, para adotar medidas de segurança e deixar claro que o governo honrará sua promessa de respeitar o resultado do plebiscito.
Milhares de pessoas estão fugindo do território, temendo a intensificação da onda de violência. Muitos indonésios e estrangeiros buscavam hoje refúgio nos QGs das forças de segurança em Dili. Entre os que fugiam estava o líder de uma milícia antiindependência, Eurico Guterres. Partindo em direção à Ilha de Bali, Guterres negava estar deixando Timor Leste e dizia que ficaria "até a última gota de sangue".
O governo brasileiro enviou hojem uma nota à imprensa manifestando sua confiança no respeito à consulta popular em Timor Leste e repudiando os "atos de intimidação e violência que resultaram na perda de vidas humanas".





