Rio, 16 (AE) Os 500 anos do Brasil como tema obrigatório do desfile das 14 escolas do Grupo Especial não renderam nenhum Samba do Crioulo Doido (paródia de Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, aos sambas-enredo, que entre outras sandices faz da imperatriz Leopoldina, do presidente Juscelino Kubitscheck e de Chica da Silva um triângulo amoroso). Para a historiadora Rachel Soihet, da Universidade Federal Fluminense (UFF), ocorreu o contrário.
Segundo ela, com poucas exceções, as escolas aproveitaram a unidade de tema "para trazer à tona os grupos marginalizados". Rachel, autora do livro "A Subversão pelo Riso - Estudos sobre o Carnaval Carioca da Belle Époque ao Tempo de Vargas, lembra que, dos anos 30 até os 80, as agremiações só podiam tratar do Brasil, o que levou Joãosinho Trinta, então na Beija-Flor, a trazer as minas do rei Salomão para a Amazônia. "Apesar da intervenção oficial e oficiosa, o carnaval desenvolve representações diversas das propostas pelos dominantes."
Para ela, a crítica política e social aparece já na primeira escola a desfilar neste ano, a Unidos do Porto da Pedra
com o tema Proclamação da República. "Não são a ordem, o progresso, a exaltação dos heróis que predominam", disse. "O enredo deixa claro que, em nome dos princípios da Revolução Francesa, militares e intelectuais, sem empenho em ter a participação popular, deram um golpe que visava antes de tudo o poder."
Ela considerou o tema da Portela, Trabalhadores do Brasil - a Época de Getúlio Vargas, "sugestivo, em época de desemprego". Elogiou a União da Ilha, cujo enredo, Para não Dizer que não Falei de Flores, "homenageia a coragem dos que arriscaram a vida contra o regime militar".
Minorias - Rachel aprovou os enredos que falam das minorias. "A Grande Rio, com Carnaval à Vista, canta o espírito festivo dos indígenas, que contagia os portugueses, e dos negros
mas mostra a proibição dessas manifestações". A Tradição também traz os negros e a Mangueira exalta o anti-herói Rei Obá 2.º. A Vila Isabel ressalta a sabedoria dos índios e a Mocidade Independente prevê a volta deles numa espaçonave.
Mas a historiadora não se entusiasma com o tom da Unidos da Tijuca. "O encontro de portugueses e índios é ufanista, sem menção às perseguições." Ela criticou o tom pouco crítico com que a Imperatriz Leopoldinense e a Beija-Flor contam o Descobrimento. O mesmo ocorre com o Salgueiro e a vinda da corte ao Brasil. Destaque para a originalidade do enredo da Viradouro, baseado no livro de Sérgio Buarque de Hollanda Visões do Paraíso.
Resultado - O escritor e jornalista Roberto Moura, editor da revista "Rio, Samba e Carnaval" e autor do livro "Carnaval, da Redentora à Praça da Apoteose", lembra que, em 1965, o desfile teve de enfocar o quarto centenário do Rio e o resultado foi excelente. "Surgiram pelo menos dois sambas maravilhosos: Os Cinco Bailes da História do Rio, do Império Serrano, e "História do Carnaval, da Mangueira."
Moura só não se conforma com a ausência de Tiradentes. "É o personagem mais falado da história do Brasil." Mas observou que Getúlio Vargas, sempre presente, vai estar de novo na avenida. "Só mostram o que houve de bom no Estado Novo e Vargas nunca morre para as escolas, como vai ocorrer este ano na Portela."
Entre os carnavalescos, há divergência sobre o tema único. Joãosinho Trinta não se sente cerceado. Mário Boriello, da União da Ilha, preferia que cada um tivesse livre escolha. "A beleza do carnaval é cada escola propor seu tema", diz Boriello, que abordou a ditadura.

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