Tema único abre espaço para grupos marginalizados
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domingo, 16 de janeiro de 2000
Por Beatriz Coelho Silva 
Rio, 16 (AE) Os 500 anos do Brasil como tema obrigatório do desfile das 14 escolas do Grupo Especial não renderam nenhum Samba do Crioulo Doido (paródia de Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, aos sambas-enredo, que entre outras sandices faz da imperatriz Leopoldina, do presidente Juscelino Kubitscheck e de Chica da Silva um triângulo amoroso). Para a historiadora Rachel Soihet, da Universidade Federal Fluminense (UFF), ocorreu o contrário.
Segundo ela, com poucas exceções, as escolas aproveitaram a unidade de tema "para trazer à tona os grupos marginalizados". Rachel, autora do livro "A Subversão pelo Riso - Estudos sobre o Carnaval Carioca da Belle Époque ao Tempo de Vargas, lembra que, dos anos 30 até os 80, as agremiações só podiam tratar do Brasil, o que levou Joãosinho Trinta, então na Beija-Flor, a trazer as minas do rei Salomão para a Amazônia. "Apesar da intervenção oficial e oficiosa, o carnaval desenvolve representações diversas das propostas pelos dominantes."
Para ela, a crítica política e social aparece já na primeira escola a desfilar neste ano, a Unidos do Porto da Pedra
com o tema Proclamação da República. "Não são a ordem, o progresso, a exaltação dos heróis que predominam", disse. "O enredo deixa claro que, em nome dos princípios da Revolução Francesa, militares e intelectuais, sem empenho em ter a participação popular, deram um golpe que visava antes de tudo o poder."
Ela considerou o tema da Portela, Trabalhadores do Brasil - a Época de Getúlio Vargas, "sugestivo, em época de desemprego". Elogiou a União da Ilha, cujo enredo, Para não Dizer que não Falei de Flores, "homenageia a coragem dos que arriscaram a vida contra o regime militar".
Minorias - Rachel aprovou os enredos que falam das minorias. "A Grande Rio, com Carnaval à Vista, canta o espírito festivo dos indígenas, que contagia os portugueses, e dos negros
mas mostra a proibição dessas manifestações". A Tradição também traz os negros e a Mangueira exalta o anti-herói Rei Obá 2.º. A Vila Isabel ressalta a sabedoria dos índios e a Mocidade Independente prevê a volta deles numa espaçonave.
Mas a historiadora não se entusiasma com o tom da Unidos da Tijuca. "O encontro de portugueses e índios é ufanista, sem menção às perseguições." Ela criticou o tom pouco crítico com que a Imperatriz Leopoldinense e a Beija-Flor contam o Descobrimento. O mesmo ocorre com o Salgueiro e a vinda da corte ao Brasil. Destaque para a originalidade do enredo da Viradouro, baseado no livro de Sérgio Buarque de Hollanda Visões do Paraíso.
Resultado - O escritor e jornalista Roberto Moura, editor da revista "Rio, Samba e Carnaval" e autor do livro "Carnaval, da Redentora à Praça da Apoteose", lembra que, em 1965, o desfile teve de enfocar o quarto centenário do Rio e o resultado foi excelente. "Surgiram pelo menos dois sambas maravilhosos: Os Cinco Bailes da História do Rio, do Império Serrano, e "História do Carnaval, da Mangueira."
Moura só não se conforma com a ausência de Tiradentes. "É o personagem mais falado da história do Brasil." Mas observou que Getúlio Vargas, sempre presente, vai estar de novo na avenida. "Só mostram o que houve de bom no Estado Novo e Vargas nunca morre para as escolas, como vai ocorrer este ano na Portela."
Entre os carnavalescos, há divergência sobre o tema único. Joãosinho Trinta não se sente cerceado. Mário Boriello, da União da Ilha, preferia que cada um tivesse livre escolha. "A beleza do carnaval é cada escola propor seu tema", diz Boriello, que abordou a ditadura.


