Telefonia e eletricidade cortadas e tiros na região do complexo da ONU
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 06 de setembro de 1999
Por John Martinkus 
Dili, 07 (AE-AP) - A eletricidade no complexo da ONU foi cortada, os telefones não funcionam e ansiosos membros da equipe local perguntavam se eles seriam abandonados à mercê da fúria dos esquadrões da morte timorenses.
À noite, todos estavam assustados pelos disparos de armas de fogo. O exército indonésio e suas milícias vigilantes controlam as ruas.
Nós sabemos que a comunidade internacional olha com apreensão para este pequeno complexo, repleto de cansados membros da UNAMET e mais de 2.500 trabalhadores e refugiados do Timor Leste.
O mais jovem tem apenas um dia de idade - Pedro Unamet Rodrigues, nascido na manhã de terça-feira e batizado com uma homenagem aos protetores dele e de sua mãe.
Durante todo o dia, policiais e militares indonésios disparam salvas de tiros com armas automáticas que cruzam o topo do complexo.
Uma forte barreira mantém dentro do complexo durante o dia inteiro os 200 funcionários internacionais da Organização das Nações Unidas e os cerca de 20 jornalistas restantes, incapazes de se aventurar para fora e testemunhar a destruição da cidade.
Com a lei marcial em vigor em toda a ilha, recebemos a palavra no fim do dia de que novos soldados do exército sob um comando útil substituiria nossa duvidosa guarda policial.
A polícia manteve o fogo contra nós em um aparente esforço de intimidar os membros das Nações Unidas e obrigar sua retirada. Garantiram a nós que o novo comandante, major Wan, prometeu estar pronto para "dar sua vida" para nos salvar.
Durante todo o dia, os funcionários da ONU sentaram com assustados timorenses atrás dos muros com arame farpado e marcas de tiro em toda a sua volta.
Os soldados indonésios tentavam obrigar que as pessoas remanescentes partissem, em um desdobramento mais amargo dos ataques que se seguiram após o anúncio feito sábado de que os timorenses do leste votaram por sua independência.
"São táticas de guerra psicológica clássica", diz um militar britânico que aqui está como parte do contingente militar desarmado.
Enquanto ele falava, o tom dos tiros mudava, tomando uma trajetória baixa sob o complexo. "Eles estão aumentando suas apostas a cada minuto", acrescentou o oficial de ligação.
As fugas continuavam, causando a intensificação dos disparos dos policiais e soldados em frente.
Na manhã desta terça-feira, enquanto alguns funcionários humanitários tentavam recolher suprimentos de seus depósitos, os disparos impossibilitavam que eles saíssem.
Do lado de fora, a cidade está destruída. Quando o sol se põe, a neblina e uma fumaça negra nos cobre. Todo o centro da cidade está em chamas, de acordo com timorenses que cruzaram a cidade na manhã de hoje. Tudo foi saqueado.
Segundo um timorense que retornou ao complexo nesta terça-feira, a cidade está deserta, exceto pela presença do exército indonésio e pelos ocasionais milicianos. Durante a manhã ele testemunhou os distritos residenciais de Balide, Santa Cruz e Audian em chamas.
"Havia milhares de pessoas nas docas e outras mais chegando a pé em colunas com soldados indonésios apontando armas para a cabeça dessas pessoas", contou este homem timorense.
De acordo com relatos, os navios que chegaram e partiram por dois dias à ilha estão levando os timorenses a lugares distantes centenas de quilômetros, como Irian Java, Ambon, Surabaya e além da fronteira para Kupang, capital do Timor Ocidental.
Caminhões repletos de timorenses do leste e militares armados ainda estão deixando a cidade rumo ao oeste. Todos os vôos comerciais para fora de Dili foram interrompidos. Os 200 funcionários da ONU permaneciam a duras penas no complexo, inclusive policiais civis norte-americanos e oficiais de ligação militares.
"A atitude de todos aqui é que ficaremos até quando for humanamente possível e sobreviveremos", disse um alto funcionário da UNAMET. "Não estamos aqui para nos preservar. Estamos aqui para cumprir uma tarefa e estamos determinados a manter nossa responsabilidade para com as pessoas que esta missão foi ordenada a ajudar."
Informações conjuntas de outras partes do país davam conta de que muitas cidades estavam incendiadas e seus habitantes estavam sendo expulsos.
Uma freira católica norte-americana de Aileu disse que a cidade estava em chamas quando ela partiu na noite passada e as pessoas estavam sendo ordenadas a entrar em caminhões. "Nunca houve nenhuma milícia em Aileu. É o exército indonésio", disse ela por telefone de seu esconderijo em Dili.
Um dos fatos que mais incomoda é que a maioria das pessoas colocadas em navios e caminhões era composta por mulheres e crianças, levantando a questão sobre o que aconteceu aos homens.
A equipe timorense aqui, com cerca de 700 pessoas, está nervosa, perguntando repetidamente se os deixaremos para trás. Ian Martin, chefe da UNAMET, os reuniu na tarde de hoje no complexo, garantindo a eles que ninguém será abandonado.
"Passamos por isso em outras ocasiões, em Maliana e Ermera. Conseguimos retirar todos com sucesso, e temos meios para ajudá-los", disse um oficial.
Uma nova onda de refugiados ingressou no complexo, criando uma condição de superlotação enquanto caía a noite. Ninguém sabe qual será o futuro. Os disparos continuam.
Estamos gratos por uma coisa: os incêndios que atingem grande parte de Dili ainda não nos atingiu.


