Telefones públicos resistem na era do celular
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domingo, 08 de julho de 2018
Juliana Diógenes<br> Agência Estado 
São Paulo - "Não é por ser velho, viu? Mas é que, para mim, compensa demais usar orelhão", já se justifica o eletrotécnico e analista de sistemas Rubens Brito, 65. Com o celular quebrado, é um dos usuários frequentes dos orelhões mais utilizados da cidade de São Paulo: os da estação de metrô e terminal rodoviário Barra Funda, zona oeste. Por lá, Brito passa diariamente, indo e vindo de ônibus de Sorocaba - no interior, onde mora -, para trabalhar.
Sim, os orelhões estão entre nós. E a maioria ainda funciona. Invisíveis para muitos, são utilizados por outros tantos que, na emergência, por falta de celular, acabam telefonando a cobrar ou com cartão. Os telefones de uso público estão espalhados nas calçadas do País: são 768 mil. De julho a dezembro de 2017, cerca de 93% dos telefones públicos no Estado tiveram uso de até 1 crédito por dia (chamada de dois minutos). Desse montante, metade teve uso de até 59 segundos.
Só na cidade de São Paulo, são mais de 40 mil. Os orelhões mais usados estão nas Estações Brás e Barra Funda - com base nos créditos dos cartões telefônicos, e não na duração das chamadas. "Muitas vezes, não tenho créditos no celular. Então, sempre tenho um cartão ou dois na mão para fazer ligações. Desta vez, estou com o celular quebrado mesmo", conta Brito. Por mês, diz usar o telefone público de 10 a 15 vezes.
Além disso, ele admite que não é lá muito afeiçoado a estender a conversa por telefone. Brito para nos orelhões da Barra Funda, coloca um cartão e conversa por dois minutos com a mulher "para saber como estão as coisas" e para avisar que estava retornando a Sorocaba.
Quem também não é muito chegada a conversar ao celular e evita o troca-troca de mensagens instantâneas é a diarista Maiana Leão, 33. "Acho que atrapalha o serviço. Sou até contra", diz ela, que está com o celular quebrado há três meses. "Meu cartão telefônico estava guardado nas minhas coisas há uns cinco anos. Sabia que usaria um dia."
Enquanto a reportagem conversava com Leão, no Brás, o técnico de telefonia Carlos Eduardo Domingues consertava os orelhões. A manutenção é semanal. Segundo ele, o principal motivo para falhas é o furto de cabos. "Quando comecei a trabalhar com orelhões, pensei que ninguém usava. Mas muita gente usa. Só no centro, na área onde opero, são quatro mil."
Longe do centro, no extremo sul da capital, moradores de Marsilac já sabem que somente duas operadoras de telefonia funcionam nas redondezas. Nessa área afastada do centro, quem usa mesmo os orelhões são "os perdidos", que não moram por ali.
Quando não são os perdidos, são moradores com perrengue: porque não têm celular ou precisam ligar para números 0800. Na quinta-feira da semana passada, a dona de casa Sara Santos, de 23 anos, estava sentada diante de dois orelhões. "Pelo celular não consigo ligar 0800. Já no orelhão, dá. Mas esses não estão funcionando. Geralmente, está tudo quebrado."
HISTÓRIA
O orelhão foi criado pela arquiteta sino-brasileira Chu Ming Silveira, em 1971, e instalado inicialmente no Rio e em São Paulo. Eram dois formatos: um menor, para ambientes fechados; e o maior, para espaços públicos. Os primeiros foram instalados na sede da CTB (Companhia Telefônica Brasileira), na Rua 7 de Abril, no centro paulistano. O modelo ainda foi "exportado" para países latinos e africanos.


