O que há em comum entre José Bové, o agitador francês que invadiu fazenda de transgênicos no Brasil, e um skinhead neonazista? Primeiro, ambos estão em Gênova, durante a cúpula do G-8, protestando contra a globalização. Segundo, são contra a ciência e a tecnologia contemporâneas, que seriam um fator de ampliação do hiato entre ricos e pobres. Na cúpula do G-8 no ano passado, esse tipo de crítica foi simbolizado com a queima de um laptop na praia de Okinawa. ‘‘Não podemos comer computadores’’, disse um dos manifestantes.
Mas, a julgar pelos dados do Relatório de Desenvolvimento Humano da ONU, divulgado no último dia 10, computadores alimentam, sim. O objetivo central do relatório, obscurecido pelas polêmicas em torno dos rankings do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e do Índice de Desempenho Tecnológico (IDT), era argumentar que ‘‘a tecnologia de informação e comunicação e a biotecnologia podem fazer grandes contribuições para a redução da pobreza mundial’’. Mais ainda: essas tecnologias já vêm fazendo tais contribuições em diversas regiões do planeta. E, mais do que combater a pobreza, elas se tornaram indissociáveis do processo de desenvolvimento econômico de toda a sociedade.
O relatório destaca três setores em que as novas tecnologias têm sido fundamentais para a correção das desigualdades: medicina, agricultura e informação. ‘‘Tecnologias médicas inovadoras já aumentaram as expectativas de vida rapidamente - mesmo em países pobres sem muita infra-estrutura de saúde’’, diz o texto. Vacinas melhores e tratamentos contra a desidratação, por exemplo, diminuíram a mortalidade infantil em alguns países pobres. Assim como o desenvolvimento de vacinas para Aids, malária e tuberculose, entre outros males que ainda os afligem, poderia salvar milhões de pessoas.
A tecnologia de informação e comunicação ‘‘pode superar barreiras de isolamento social, econômico e geográfico, aumentar o acesso à informação e à educação e permitir maior participação de pessoas pobres em decisões que afetam suas vidas’’. O texto dá exemplos de uso da ‘‘e-democracia’’ em países como as Filipinas, da criação de rede de saúde no Nepal, da criação de empregos na Índia ou na Costa Rica. Com o desenvolvimento de computadores mais baratos e resistentes, o processo tende a intensificar.
Na agricultura, o relatório trata da questão dos transgênicos. Apesar da controvérsia, diz o texto, os organismos geneticamente modificados (OGMs) vêm trazendo benefícios a populações malnutridas. Em comparação com as plantações tradicionais, os OGMs são mais resistentes a vírus e pragas, mais ricos em proteínas, de custo mais barato e mais benéficos ao meio ambiente porque dispensam adubos e agrotóxicos. Novas variedades de arroz desenvolvidas no Japão são citados como exemplo de que a biotecnologia pode melhorar a quantidade e qualidade da alimentação.
No caso da medicina, o relatório chama a atenção para a necessidade de investir mais recursos em pesquisas sobre doenças características de regiões pobres. ‘‘Apenas 10% da pesquisa mundial em saúde é focada em doenças que constituem 90% dos problemas.’’ No setor de informação, o texto recomenda maior investimento público e privado na difusão da tecnologia, ainda muito cara em países atrasados.
Na agricultura, alerta para a exigência de controle dos riscos na manipulação dos OGMs, que requer ajuda dos centros de pesquisa dos países ricos, e elogia a obrigatoriedade de rotular os transgênicos, adotada em países como o Brasil. Também sugere mais pesquisas em técnicas agrícolas e recursos energéticos.

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