Curitiba- O Hospital de Clínicas (HC) de Curitiba, em parceria com a clínica especializada em reprodução humana Androlab, são pioneiros no Paraná no congelamento de tecido ovariano de pacientes com câncer. Essas mulheres têm 90% de chance de ficaram estéreis após o tratamento da doença. Mas com o congelamento do ovário, elas podem ser submetidas a um transplante depois de curadas, adquirindo a possibilidade de ter filhos. A técnica de congelamento do tecido ovariano já vem sendo aplicada há alguns anos em diversos países do mundo. Contudo, o primeiro nascimento de um bebê cuja mãe foi submetida ao transplante aconteceu na semana passada, na Bélgica.
O médico especialista em reprodução humana, Alessandro Schuffner, explica que quando a mulher se submete ao tratamento de radioterapia e quimioterapia em regiões próximas ao ovário, geralmente acontece a destruição do órgão. Com a técnica, quando a paciente estiver apta a ter filhos geralmente cinco anos após a cura do câncer , o tecido ovariano congelado é implantado embaixo da pele e estimulado a fazer a maturação dos óvulos. Daí a fertilização é feita em laboratório e o embrião introduzido no útero da mulher, que tem uma gestação normal. ''Apesar da técnica já estar desenvolvida, sempre deixamos claro para as pacientes que é experimental e não há garantia de que vai dar certo'', afirma Schuffner.
Mas, mesmo sem garantias, essa é a única esperança que Rafaela Iracema Fedalto Cubas, 23 anos, de União da Vitória, vê para poder ter filhos um dia. Ela foi a primeira paciente do Paraná, em maio de 2003, que congelou o ovário. Com 21 anos de idade e apenas quatro meses de casada, Rafaela descobriu que tinha um câncer no intestino e que o tratamento poderia, como de fato aconteceu, deixá-la estéril. Rafaela começou a tratar de sua doença no HC e lá foi informada que poderia se encaixar no perfil da pesquisa da nova técnica. ''Retirei meu ovário direito. Hoje já estou curada e só estou esperando o tempo necessário para ter certeza de que o câncer não vai voltar para tentar engravidar'', conta. Mais sete mulheres já congelaram tecido ovariano no Estado.
Todo o tratamento, que envolve a cirurgia de retirada do ovário, o congelamento e conservação e, no futuro, a tentativa de fertilização, está sendo custeado pelo HC e pela Androlab, que é particular. Porém, para poder fazer o tratamento, a mulher precisa se enquadrar em um perfil, que leva em conta itens como a idade, tipo de câncer, se ela já tem filhos ou não, entre outros. Os médicos só retiram um dos ovários, já que a paciente tem 10% de chance de não ficar estéril com o tratamento contra o câncer. O tecido ovariano, segundo Schuffner, pode ficar congelado o tempo que for necessário.
O único questionamento da nova tecnologia, explica o médico Lídio Ribas Centa, responsável pelo setor de reprodução humana do HC e da Androlab, que participa da pesquisa, é que ao reimplantar o tecido ovariano na mulher existe uma chance de ele ter células cancerígenas e provocar a volta da doença. ''Esse é um fator que conta na hora de selecionarmos as mulheres que vão fazer o tratamento'', afirma. O médico diz que já existe estudo de uma técnica para fazer a maturação do óvulo em laboratório, evitando assim o transplante e o risco de uma nova contaminação. Contudo, a pesquisa ainda está em fase inicial.

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