Brasília, 1 (AE) - O economista José Mendonça de Barros, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, vê com preocupação a manutenção das taxas de juros em 19% desde setembro do ano passado. Para Mendonça de Barros, o Banco Central está perdendo o "timing" para reduzir os juros. "O Banco Central está criando a receita para o imobilismo", disse Mendonça de Barros à Agência Estado. Segundo ele, a permanência das taxas de juros nesse patamar por um período tão longo pode ser tornar uma "armadilha" para o próprio Banco Central. "O Banco Central precisa tomar cuidado para não hesitar em relação aos juros e deixar acontecer o mesmo que ocorreu no passado com a política cambial", afirmou.
Na sua avaliação, o Banco Central está cometendo um "equívoco" em manter os juros em 19% diante do cenário econômico brasileiro atual favorável, com inflação em queda, retomada da atividade econômica, crescimento do comércio exterior, cumprimento das metas de ajuste fiscal prometidas ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e estabilização da relação dívida pública e Produto Interno Bruto (PIB). "Melhor do que isso vai ficar como?", questionou ele. "As taxas de juros já deviam ter caído", disse. Motivos - Mendonça de Barros disse que os principais motivos que o Banco Central justificou para não reduzir as taxas de juros em fevereiro - alta do preço do petróleo e incertezas com relação aos juros norte-americanos - ainda deverão estar presentes na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). "A taxa de juros já está no preço do mercado", disse. "E o mundo espera a redução dos preços do barril do petróleo", acrescentou.
Segundo ele, o futuro dos preços internacionais do petróleo vai depender da disputa entre os países que integram a Opep, divida entre os "gaviões", os países que dependem de uma maior receita com a venda do produto, como Venezuela e Nigéria, e os "pombos", os que não tem urgente necessidade de receita e
por isso mesmo, sabem que o importante é manter o fluxo de venda, entre eles México e Arábia Saudita. Além disso, a possibilidade de quebra da safra agrícola brasileira este ano, outro motivo de preocupação da equipe econômica, na avaliação do ex-secretário, não justifica a cautela do Banco Central. Uma quebra da safra agrícola, avaliou Mendonça de Barros, não causaria impacto nos índices de preços.
O problema maior seria um aumento das importações brasileiras. "O impacto é nas importações, e mesmo assim lá na frente, no segundo semestre, e não nos preços", ressaltou Mendonça de Barros. Segundo ele, o Banco Central corre o risco de ser vítima da sua própria cautela e acabar tendo dificuldades
no futuro, para promover a redução dos juros. "Já tem gente no mercado apostando que os juros vão ficar em 19% ao longo do ano", observou. Essa percepção poderá crescer e acabar sendo um inibidor maior para o BC fazer o movimento de queda das taxas de juros. O ex-secretário ressaltou ainda que há a necessidade dos juros caírem para a continuidade do crescimento do País e o cumprimento das metas fiscais este ano.