Lima (AE-NEWSWEEK) - Alberto Fujimori julgava que tudo estivesse arranjado. Enquanto o fim de seu segundo mandato como presidente do Peru se aproximava, a nova Constituição ia sendo "reinterpretada" para permitir que ele concorresse ao terceiro mandato seguido. Quando os membros de um tribunal constitucional se opuseram a isso, foram removidos. Magnatas da TV que apresentavam uma cobertura menos favorável ao presidente foram depostos por acionistas pró-Fujimori.
Mas a campanha do dirigente para a reeleição não se baseou inteiramente em táticas de força. Fujimori, de 61 anos, tinha antecedentes para alicerçar sua campanha. Durante sua primeira década no governo, o filho de imigrantes japoneses venceu a hiperinflação e a insurreição maoísta, e construiu uma infra-estrutura na zona rural - pontes, estradas e sistemas de irrigação. Em entrevista à Newsweek, afirmou, com orgulho: "Herdei um país no caos e nós o convertemos num país viável." Ainda que isso seja verdade, a vitória de Fujimori e seus partidários nas eleições presidenciais e legislativas do próximo domingo ainda está longe de estar assegurada.
Pela primeira vez na sua carreira política de extraordinário sucesso, Fujimori enfrenta um sério concorrente: Alejandro Toledo, de 52 anos, diretor de uma escola de administração de empresas de Lima. De pele escura, com as características de indígena da zona rural, Toledo está tão longe de parecer com a maioria dos peruanos urbanos, descendentes de espanhóis, quanto Fujimori. Nas últimas semanas Toledo subiu muito nas pesquisas. Fujimori ainda mantém uma liderança substancial, que varia de 10 a 18 pontos. Mas a pesquisa mais recente, feita por um respeitado instituto de Lima, revelou que apenas 37% dos eleitores estavam dispostos a apoiar Fujimori, entre nove candidatos presidenciais.
Se o presidente não obtiver maioria no primeiro turno, será forçado a participar do segundo, provavelmente contra Toledo. E este, que ficou em terceiro lugar nas eleições presidenciais de 1995, parece estar com grande impulso desta vez. De acordo com a pesquisa do Apoyo, sua popularidade subiu de 10% para mais de 25% no último mês.
Para garantir sua reeleição, Fujimori conta com sua posição de salvador do Peru - e com a ajuda do sinistro Serviço de Inteligência Nacional, que costuma prejudicar os rivais em potencial recorrendo a campanhas de desinformação. Nos primeiros estágios da disputa, candidatos da oposição foram afastados do cenário. O prefeito de Lima, amplamente respeitado, foi ridicularizado pela imprensa pró-Fujimori, por sua constituição física obesa e por suas supostas preferências sexuais excêntricas. O ex-diretor do sistema de seguro social do Peru foi acusado de sequestro depois de ter tentado prender um agente do governo que o seguia. Toledo também foi alvo de ataques maldosos, envolvendo uma filha fora do casamento. Mas não deu importância aos ataques pessoais desfechados por partidários de Fujimori. "Eles se meteram em apuros", declarou Toledo à Newsweek. "Sou um índio obstinado e rebelde, e eles não me farão desistir."
Toledo, que foi engraxate na infância, formou-se em economia pela Universidade Stanford e foi funcionário do Banco Mundial. Um dos 16 filhos de um camponês que trabalhou arduamente, Toledo transferiu-se para o norte da Califórnia na adolescência, para cursar o segundo grau. Obteve uma bolsa na Universidade de São Francisco, dirigida por jesuítas. Depois, fez doutorado em Stanford.
Em Stanford, namorou Eliane Karp, uma jovem ruiva, filha de judeus belgas, que nasceu em Paris e mudou-se para um kibutz no norte de Israel aos 16 anos. Eliane e Toledo conheceram-se poucas semanas após a chegada dela a Stanford, no segundo semestre de 1978, para obter o grau de doutora em antropologia. Embora ele fosse 11 anos mais velho, os dois se apaixonaram à primeira vista. Casaram-se um ano mais tarde, formando um par elegante e multicultural. Eliane tinha pouco mais de 20 anos quando o casal se transferiu para o Peru, em 1981, e, nos sete anos subsequentes, ela trabalhou para a Agência de Desenvolvimento Internacional, dos EUA, e para outras organizações de ajuda, como consultora de desenvolvimento na região andina.
Nas últimas três semanas, Eliane, hoje com 41 anos, emergiu como arma secreta na campanha do marido. Ela lê, em média, quatro livros por semana, trabalha dez horas por dia em uma instituição bancária de Lima e fala sete línguas fluentemente - uma delas é o quéchua, principal língua indígena do país. Num recente programa de TV, com a presença das mulheres de quatro candidatos de oposição, ela provou ser a única que dominava essa língua antiga. "Sou mais peruana, nos gostos e no conhecimento, do as próprias mulheres nascidas no Peru", disse Eliane na residência do casal, num subúrbio de Lima, há duas semanas. "Passei muitos anos de minha vida aprendendo coisas sobre o Peru, e optei por deixar minha família e minha cultura para trás
para seguir Alejandro."
Seu marido revelou-se um oponente mais formidável do que qualquer pessoa imaginaria. Quando anunciou que se candidataria à presidência pela segunda vez, o senso comum, em Lima, era o de que nenhum político com suas características inconfundivelmente indígenas poderia vencer numa sociedade tão racista. Mas Toledo logo abandonou sua rotina de homem que venceu na vida por esforço próprio, que havia afastado de si tantos eleitores cinco anos antes. Em vez disso, apresentou-se como candidato de centro
prometendo preservar a maioria das políticas econômicas de livre mercado de Fujimori e dar continuidade à implacável ofensiva do Exército contra os remanescentes do grupo guerrilheiro Sendero Luminoso. Mas também prometeu oferecer um governo mais democrático, e atacou o calcanhar-de-aquiles de Fujimori: o desemprego crônico, que aprofundou o abismo entre ricos e pobres.
Toledo também está sendo ajudado pelos excessos da máquina eleitoral de Fujimori. O jornal El Comercio causou sensação, no início de março, ao revelar como funcionários de alto escalão do governo ajudaram a falsificar 1 milhão de assinaturas a favor de uma nova facção política pró-Fujimori, que pretendia registrar-se a tempo de participar das eleições. A revelação surgiu depois que o Instituto Nacional Democrático para Assuntos Internacionais e o Centro Carter terem classificado o processo eleitoral de "deficiente". Entre outras coisas, o relatório citou o fato de os candidatos de oposição não terem acesso às redes de TV.

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