Tasso vence disputa com Bezerra pelo controle do FNE
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sexta-feira, 28 de janeiro de 2000
Por César Felício, Gilse Guedes e Diana Fernandes 
Salvador, 28 (AE) - O governador do Ceará, Tasso Jereissati (PSDB), ganhou a disputa pelo controle do fundo constitucional do Nordeste (FNE) com o ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, e obteve do presidente Fernando Henrique Cardoso a garantia de que os recursos do FNE continuarão a ser geridos pelo Banco do Nordeste, órgão sob a qual exerce influência. A decisão foi tomada durante jantar, ontem (27), no Palácio do Alvorada oferecido pelo presidente a Jereissati e ao governador da Bahia César Borges (PFL), com a participação de Bezerra, e confirmada hoje, durante a reunião dos governadores nordestinos em Salvador.
"Todos os problemas foram superados e não há mais divergências: o Conselho Deliberativo da Sudene, presidido pelo ministro, dará as grandes diretrizes das aplicações e o Banco irá administrar as regras", afirmou Jereissati. Ao ser indagado sobre o que isto muda em relação às regras atuais, Tasso foi claro: "Nada, apenas torna o tema mais claro de ser compreendido."
Aliado de Jereissati na defesa da gestão do FNE pelo Banco do Nordeste, César Borges admitiu que o ministro lembrou que uma das pré-condições para assumir em julho do ano passado o ministério recém-criado tinha sido o controle dos fundos constitucionais, "mas ele verificou que ficar sem os fundos não altera em nada a importância política do ministério". Desta maneira, de acordo com Borges, "ficou acertado que o ministro dará a linha mestra da política a ser seguida pelo banco, mas quem decide quanto emprestar, a quem emprestar e como emprestar será o banco".
Em Porto Alegre, o presidente Fernando Henrique Cardoso foi enfático ao dizer que jamais cogitou enfraquecer o Banco do Nordeste. "Nunca houve esta intenção de diminuir a importância do Banco do Nordeste, mas às vezes há boatos que saem por aí", disse. Depois de jantar com Jereissati e Borges, Fernando Henrique teve o cuidado de telefonar para a governadora do Maranhão, Roseana Sarney (PFL), para dar a mesma garantia.
Em Natal, Fernando Bezerra afirmou que não encarava o resultado da reunião como uma derrota política. "Estou muito satisfeito, já que as divergências estão encerradas, e é claro que eu me sinto confortável no governo, caso contrário, não ficaria no cargo de ministro", disse. O seu esforço no ministério, segundo Bezerra, será agora "trabalhar na remodelagem das superintendências de desenvolvimento" afirmou, referindo-se à Sudene e à Sudam.
Se perdeu a disputa pelo controle do BNB, o ministro conseguiu a promessa do governo de implantar um de seus principais projetos no ministério, que é a transposição das águas do rio São Francisco. Antes de ir a Brasília, César Borges esteve em São Paulo, onde conversou no hotel Maksoud Plaza com o presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA), inimigo da proposta. No Palácio da Alvorada, o tema foi longamente discutido com Jereissati, Bezerra e o presidente.
Na reunião dos governadores, o próprio Borges anunciou que Fernando Bezerra fará uma palestra sobre o projeto aos nove governadores nordestinos em João Pessoa, no próximo dia 18. "O processo de implantação deste projeto não poderá ser açodado e teremos que ter salvaguardas para apoiá-lo", ressalvou Borges, que sempre combateu a proposta. Assessores do governador baiano afirmam que a Bahia poderá receber um pacote de investimentos federais no setor de geração de energia elétrica para compensar os possíveis efeitos negativos da transposição no Estado.
O agendamento da reunião em João Pessoa foi lembrado pelo governador do Rio Grande do Norte, Garibaldi Alves Filho (PMDB), como um sinal de que o jantar de ontem (27) não fora uma completa derrota política do ministro, seu aliado e um dos possíveis candidatos do PMDB à sua sucessão em 2002. Na visão de Garibaldi Filho, a briga pelo controle do FNE foi "uma disputa que não aconteceu na prática". "O ministro conseguiu pela medida provisória editada na semana passada fixar os juros praticados pelo Banco do Nordeste, o que já é uma evidência de que as diretrizes gerais estão sendo dadas pelo ministério", disse.
Tasso Jereissati obteve o apoio dos outros oito governadores nordestinos para defender a gestão do FNE pelo Banco do Nordeste porque, apesar de a instituição ser controlada pelo PSDB cearense, a política de crédito adotada pelo banco tem agradado aos demais estados. "Quando assumi o governo em 1995, Sergipe estava em nono lugar no volume de recursos liberados pelo Banco e, quatro anos depois, passou para o quinto lugar", disse o governador sergipano Albano Franco (PSDB). "Só no Piauí, o Banco é responsável por mais de 80% do crédito do empresariado local", citou o governador piauiense Francisco de Assis Moraes de Souza, o Mão Santa (PMDB).


