Tarifas, combustíveis e contratos respondem por 46% da inflação apurada pelo IPC este ano
São Paulo, 08 (AE) - Tarifas e combustíveis, preços pré-estabelecidos, que não resultam das leis de mercado, vão responder neste ano por quase a metade (46%) da inflação apurada pelo Índice de Preços ao Consumidor da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (IPC-Fipe), que está estimada em até 7%. Do início do Plano Real, em julho de 1994, até dezembro de 1998, antes da desvalorização do câmbio, o vilão da inflação de 65,9% acumulada nesse período foi o preço regido por contratos (aluguel e planos de saúde, entre outros). Nesse período, os contratos foram responsáveis por 34% do IPC da Fipe.
Isso é o que demonstra uma análise feita pela economista do BCN Alliance, Ana Cristina Gonçalves da Costa. Ela reclassificou cada item do IPC da Fipe em cinco grandes grupos de preços: serviços, oligopólios, competitivos, contratos e tarifas, que incluem os combustíveis. Com essa setorização do índice, fica claro, diz Ana Cristina, que não há um processo inflacionário se instaurando na economia, marcado por altas generalizadas e recorrentes de preços, apesar do repique nos índices registrado nos últimos meses.
De janeiro a julho, dos cinco grupos de preços analisados, apenas dois grupos - tarifas e oligopólios - subiram acima da inflação de 3,62% acumulada no período. Nos sete primeiros meses deste ano, as tarifas, que nessa classificação incluem os combustíveis, tiveram alta de 9,89% e os oligopólios foram reajustados em 4,87%. São exatamente esses setores que formam preços com relativa autonomia em relação à demanda.
Já os serviços subiram 1,3% de janeiro a julho, os preços competitivos tiveram alta de 1,1%, enquanto os contratos recuaram 0,5%. Os serviços e os preços competitivos resultam do nível de demanda, enquanto os contratos refletem a inflação passada. "Cada categoria está se comportando dentro da sua própria lógica", ressalta Ana Cristina. Segundo ela, esse raio X mostra que a inflação tem respondido apenas às mudanças de preços relativos provocadas pela desvalorização e pela alta na cotação internacional do petróleo.
Isso é, nos grupos de preços que dependem do ritmo da demanda, os aumentos foram bem menores, refletindo a restrição de renda do consumidor em aceitar repasses automáticos de aumentos de custos para os preços. Além disso, numa economia aberta, fica mais difícil emplacar aumentos de preços nos produtos que têm similares estrangeiros. Núcleo da inflação - Outra análise que reforça a tese que a alta de preços não é generalizada, apesar do repique dos índices nos últimos meses, é aquela que observa o comportamento do núcleo da inflação, chamado pelos especialistas de "core inflation". A economista explica que seguiu a metodologia dos norte-americanos e escolheu os preços dos oligopólios e dos serviços para formarem juntos o núcleo da inflação. Ao avaliar o núcleo da inflação - análise que reduz o efeito da sazonalidade nos preços -, Ana Cristina constatou que o núcleo da inflação ficou bem abaixo do índice geral do IPC-Fipe nos dois últimos meses (junho e julho).
Ela destaca que a média do núcleo da inflação teve alta expressiva no primeiro trimestre porque os oligopólios repassaram aumentos de custos decorrentes da desvalorização. Mas esse efeito se dissipou. Prova disso é que, no segundo trimestre
o núcleo da inflação ficou em 0,11% e deverá girar em torno de 0,05% no terceiro trimestre. Para o último trimestre do ano, no entanto, a perspectiva é que o núcleo da inflação volte a subir e fique em 0,5%. Mas, segundo a economista, essa alta se dará por causa de pressões típicas dessa época do ano, quando mais dinheiro volta a circular na economia. Esses aumentos esperados entre outubro, novembro e dezembro não resultarão de repasses de custo ou recomposição de margens, ressalta a economista. (M.C.)





