Tangidos pelo fogo, trazidos pela água
A saga dos quilombolas do Paiol de Telha foi tema da dissertação de mestrado do historiador londrinense Filipe Germano Canavese, pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp). Em pesquisas por cartórios, igrejas, delegacias, Canavese foi a fundo na história que começou em 1860, quando a dona das terras Balbina Francisca de Siqueira, que não tinha filhos, deixou em testamento a antiga Fazenda Capão para onze escravos como indenização pelos serviços prestados.
Durante um século, os escravos libertos e os descendentes viveram na terra até que, na década de 1970, foi iniciado um processo de grilagem coordenado pelo delegado da época. Nesse meio tempo, os negros cultivaram lavouras de subsistência e criaram porcos. "A vida antigamente era muito difícil, mas nós não passávamos dificuldades. O problema veio quando tivemos que sair de lá", lembra João Maria Soares.
Aos 104 anos, Ondina Maria de Jesus mora com parentes em Guarapuava. A mais idosa da comunidade lembra com riqueza de detalhes do dia em que foi expulsa do Fundão. "Eu era viúva. Saí de lá para levar comida para meus filhos, que estavam escondidos no mato com medo dos jagunços. Quando voltei, tudo estava queimado." Segundo ela, casas, cemitério, igreja e todos os vestígios da cultura dos ancestrais foram consumidos pelo fogo.
Daquela época só restaram histórias e lendas. Em meio às vielas lamacentas que se formaram entre os barracos, resultado da chuva que não dava trégua na região havia nove dias, João Soares constata: "Saímos com fogo, voltamos com água. É chuva pra renovar as esperanças", filosofa. Ele junta gente para contar para os mais novos o que aprendeu com o pai e o avô. "Um dia meu pai me chamou ali na baixada e me mostrou um amontoado de pedras. Ele disse que ali os escravos encontraram uma carroça de ouro perdida durante as passagens de tropeiros e jesuítas pela região", conta. "Acho que a terra foi uma recompensa pelo ouro que foi entregue aos patrões."
Canavese, que dedicou três anos de pesquisa ao tema, destaca a importância de manter viva a história das comunidades quilombolas do Estado. "A resistência desse povo desmonta o senso comum que há no Estado, principalmente na região sul, de que todos são filhos ou netos de imigrantes europeus. No trabalho, denomino de outras cores essa composição demográfica", salienta. De acordo com a Fundação Cultural Palmares, o Paraná tem 86 comunidades quilombolas identificadas. (C.F.)





