Talebans ameaçam invadir avião indiano
KANDAHAR, Afeganistão, 27 (AE-AP) - Comandos do grupo integrista muçulmano Taleban vão invadir o jato sequestrado da Indian Arlines se os terroristas cumprirem a ameaça de começar a matar os 155 reféns a bordo.
A advertência foi feita nesta segunda-feira (27) pelo ministro de Relações Exteriores do Taleban (que governa o Afeganistão), Abdul Wakil Muttawakil, enquanto sete funcionários indianos chegavam à cidade afegã de Kandahar para negociar com os piratas aéreos.
"Se soubermos que os sequestradores estão recorrendo a atos desumanos, como matar pessoas, então vamos invadir o avião e salvar algumas vidas", disse Muttawakil em entrevista coletiva em Kandahar, no quarto dia do sequestro.
O chanceler também se mostrou impaciente com a Índia, que não tem relações diplomáticas com o Taleban e acusa o grupo de abrigar militantes que combatem o controle indiano de parte da Caxemira. "Nosso conselho ao governo indiano é não perder tempo. Queremos resolver esta crise com urgência, com o envolvimento das autoridades indianas e sem um incidente."
Quando caiu a noite, os enviados indianos, chefiados pelo secretário da chancelaria Vivek Katju, iniciaram conversações diretas com os sequestradores, falando por rádio da torre de controle do aeroporto. Mas, segundo o Taleban, não houve progresso nos primeiros contatos.
Além dos negociadores, a delegação indiana inclui médicos com remédios para os reféns e técnicos com peças de reposição para o avião - o qual, entre outros problemas, estaria com um vazamento de óleo.
Os sequestradores haviam ameaçado começar a executar os 155 passageiros e tripulantes que permanecem no Airbus A-300 caso a Índia não libertasse até as 6h10 de hoje, pelo horário de Brasília, um clérigo islâmico nascido no Paquistão, Maulana Masud Azhar - que foi capturado em 1994 na Caxemira indiana e lidera o grupo integrista Harkat-ul-Mujahedin -, e vários rebeldes separatistas da Caxemira.
O prazo venceu aparentemente sem incidentes, depois que seis caminhões repletos de comandos armados do Taleban cercaram o avião. "Advertimos os sequestradores de que, se eles adotarem alguma ação ou matarem alguém em nosso território, vamos dar-lhes o mesmo tratamento", disse um porta-voz do Taleban, Rehmatullah Aga. Passado o prazo, os comandos foram retirados de perto do avião.
No domingo circularam rumores de que Azhar possa ter vínculos com o terrorista saudita Osama bin Laden, que vive aparentemente sob a proteção do Taleban no Afeganistão. Hoje, o grupo de bin Laden, Al-Qaida, divulgou um comunicado negando envolvimento com o sequestro e acusando a Índia de tramar a ação para difamar o Taleban e o Paquistão.
O Airbus da Indian Airlines foi dominado pelos sequestradores - armados com facas, pistolas e o que parecem ser granadas - na sexta-feira, após decolar de Katmandu (Nepal) para Nova Délhi, onde não chegou. Depois de pousos em Amritsar (Índia), Lahore (Paquistão) e Dubai (Emirados árabes Unidos, onde os terroristas libertaram 27 reféns e entregaram o corpo de um passageiro morto a facadas após tentar conversar com eles), o avião aterrisou sábado em Kandahar, no sul do Afeganistão. Lá foi libertado domingo outro passageiro.
A agência oficial Press Trust of India informara inicialmente que os sequestradores seriam cinco - três da Caxemira, um afegão e um nepalês. Hoje, porém, assinalou que são seis - quatro paquistaneses, um afegão e um nepalês. Entretanto, reféns libertados falam em cinco. Alguns ex-reféns contaram hoje seu drama.
"No começo, pensei que alguns passageiros disputavam a parte traseira do avião", disse Geetab Baisla, que foi solta com seus três filhos. "Depois de alguns minutos, anunciaram que o avião fora desviado."
"Depois de terem tomado o controle, os piratas ordenaram que todos os passageiros homens baixassem a cabeça e vendaram-lhes os olhos", contou B. K. Tandom, que relatou o assassinato do jovem Rippin Katyal. "Ele e outro homem levantaram a cabeça e tentaram falar com os sequestradores, que os advertiram por alguns minutos e depois os levaram para a primeira classe. Foi a última vez que o vi vivo."
O chefe de uma delegação humanitária da ONU que chegou domingo a Kandahar e tem mantido contatos por rádio com o piloto do Airbus informou que os sequestradores parecem calmos, mas os reféns estão em "más" condições físicas e mentais.
Dezenas de parentes dos reféns (na maioria indianos) marcharam por Nova Délhi em protesto contra a lenta reação de seu governo ao sequestro, e entraram em choque com as forças de segurança. A Índia também está sob pressão externa para resolver logo a crise.
"Queremos ver o governo indiano ainda mais envolvido para alcançar uma solução feliz", disse o chanceler espanhol, Abel Matutes. Há quatro espanhóis - incluindo um argentino com dupla cidadania, Carlos Falcione Rodríguez - entre os reféns.





