Tabaré e Batlle disputam eleição voto a voto Do enviado especial LOURIVAL SANT'ANNA
Montevidéu, 28 (AE) - Os candidatos Jorge Batlle, do Partido Colorado, e Tabaré Vázquez, da Frente Ampla, disputavam hoje (28), voto a voto, a presidência do Uruguai. As pesquisas indicavam empate técnico, com cada um na faixa dos 45% dos votos e ao redor de 6% de indecisos. A votação terminou às 19h30 (20h30 em Brasília).
Os resultados da boca-de-urna de diversos institutos de pesquisa e meios de comunicação ainda estavam sendo consolidados hoje à noite e a contagem dos votos avançaria pela madrugada. Os primeiros números oficiais só deveriam ser divulgados às 00h30 desta segunda-feira.
No primeiro turno, dia 31 de outubro, Tabaré obteve 39,06% dos votos; Batlle, 31,96% e o candidato blanco, o ex-presidente Luis Alberto Lacalle (1990-1995), 21,92%.
A tendência de crescimento favorece Batlle, que, em duas semanas, subiu até cinco pontos porcentuais, dependendo do instituto, para alcançar Tabaré. Com isso, o clima era de mais firmeza e confiança entre os colorados que entre os militantes da Frente Ampla. Integrantes do círculo íntimo de Tabaré chegaram a segredar que se preparavam para liderar a oposição. Mesmo assim, nenhum analista independente arriscava um palpite no início da noite de hoje.
"Amanhã, tudo continuará igual, não vai acontecer nada", disse Tabaré, depois de votar - aparentemente traindo certo pessimismo íntimo quanto às próprias chances de vitória. O candidato socialista, um médico de 59 anos, ex-prefeito de Montevidéu (1990- 94), fez um apelo "pela paz e a cordialidade".
Tabaré votou às 8h30, meia hora depois do início da votação, no Hospital das Clínicas da prefeitura, no bairro popular de Belvedere.
Foi recebido por centenas de partidários fervorosos, que o esperavam à porta da seção eleitoral, aos gritos de "e já se vê o presidente Tabaré". Num momento de maior efusão, a multidão entoou, na melodia da marchinha de carnaval brasileira, "ô-lê-lê, ô-lá-lá, se isso não é o povo, o povo onde está?".
Uma das mais entusiasmadas era a vendedora ambulante Ana María Sosa, de 44 anos, que, até essa eleição, votava nos colorados. "Estamos trabalhando graças ao prefeito Mariano Arana (da Frente Ampla)", explicou ela. "Os colorados disseram que iam tirar-nos das calçadas." Já Olga Quijano, de 66 anos, vota na Frente Ampla desde sua fundação, em 1971. "Estamos na miséria por culpa dos colorados e blancos", disse ela, referindo-se aos dois grupos que se alternam no poder há mais de um século e meio.
Não muito longe dali, ao meio-dia, o senador Batlle, advogado de 72, chegava para votar, num colégio. O candidato não disse uma palavra sequer às dezenas de jornalistas que tentavam ouvi-lo.
Um grupo de simpatizantes, menos numeroso mas não menos entusiástico, aguardava-o. "Batlle é muito inteligente, enquanto Tabaré é um bom médico, mas não sabe nada de política e foi mau prefeito", disse Angela, de 69 anos, que não quis dar o sobrenome, por "medo", segundo ela, de represálias dos militantes da Frente Ampla.
"Eles se embriagam, se drogam, não podem ver uma bandeira colorada que atiram pedras, são muito agressivos, são terríveis", foi enumerando Angela, sob gestos de aprovação das amigas, que não quiseram dar sequer o primeiro nome. Enrolado numa bandeira colorada, Pedro Koyounian, de 52 anos, dirigente da Agrupação Nacional de Médicos Colorados, disse que apóia o partido por sua "coerência programática".
"A esquerda não tem experiência", afirmou Koyounian. "Eles vendem ilusões, como num circo, porque não há recursos para fazer o que eles prometem, como aumentar os salários." Koyounian, de família armênia, disse que não entende "como alguém pode votar em comunistas", lembrando o período em que a Armênia estava sob o domínio da União Soviética.
O comparecimento dos uruguaios às urnas deve aproximar-se dos 100%, como é tradição no país, altamente politizado. Hoje, era comum ver velhinhos de mais de 90 anos, caminhando com dificuldade para sua seção eleitoral. Até mesmo o índice de votos brancos e nulos deve ficar bastante baixo. Os uruguaios gostam de votar e de decidir. O problema é que, dessa vez, eles ficaram divididos ao meio.





