Suspeitos no caso Androcur são soltos
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sábado, 10 de abril de 1999
Por Gabriela Scheinberg (especial para a AE) 
São Paulo, 10 (AE) - Os 19 suspeitos envolvidos no caso Androcur, remédio para câncer de próstata que foi falsificado e distribuído no mercado brasileiro há um ano, foram soltos esta semana. Embora alguns indiciados estivessem respondendo ao processo em liberdade, pelo menos seis outros saíram da cadeia na quarta-feira (07). Segundo o promotor de Justiça da 4ª Vara Criminal do Fórum central, José Antônio Franco da Silva, os suspeitos estavam presos há seis meses e o Tribunal de Alçada Criminal julgou que o prazo de prisão preventiva havia expirado.
A primeira suspeita de que houve um derrame de comprimidos falsos de Androcur - o lote 351 - ocorreu no fim de janeiro de 1998. A falsificação e distribuição do produto foi confirmada pela polícia. Pelo menos 11 homens de quatro Estados podem ter tido a morte acelerada pela ingestão de medicamento inócuo. O medicamento falso chegou aos hospitais públicos de Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo. Um ano depois, o caso continua sem solução.
A Distribuidora Dipron, de Campinas, no interior de São Paulo, que revendeu Androcur falso para o Hospital Dr. Hélio Angoti, de Uberaba (MG), continua funcionando. O mesmo ocorre com a tradicional Botica ao Veado DOuro, empresa coligada ao Laboratório Veafarm, de São Paulo, responsável pela produção de cerca de 1 milhão de comprimidos falsos. A Veafarm, no entanto, fechou as portas após ser acusada de fabricar os comprimidos, em novembro.
O ex-sócio da farmácia, Daniel Eduardo Derkatscheff Vera
está foragido desde o pedido de prisão preventiva, no fim de 1998. Por ter fugido da polícia, Vera não faz parte dos réus que tiveram a prisão preventiva revogada pelo prazo expirado, explicou o advogado dele, Marçau Alves de Melo.
O atual proprietário da Veado DOuro, Edgar Helbig, pediu o afastamento de Vera no começo do ano. De acordo com Karlheinz Neumann, advogado de Helbig, Vera recorreu da decisão, mas a Justiça não o favoreceu. A farmácia de manipulação, que tem a tradição de 140 anos de operação, viu o movimento encolher 80% depois do caso Androcur. Helbig demitiu 350 funcionários e fechou todas as filiais da botica. Neumann afirma que a empresa conseguiu recuperar 40% do movimento, mas se limita hoje a vender apenas produtos de manipulação. Helbig responde ao processo criminal em liberdade.
A Distribuidora Ação, de Belo Horizonte, também amarga dias difíceis após o escândalo dos remédios falsos. O dono da distribuidora, José Celso Machado de Castro, demitiu 146 funcionários e não está distribuindo remédios. "Vou pensar se quero voltar para esse ramo", afirmou Castro. Ele afirmou desconhecer que os remédios eram falsos. "Se soubesse da fraude, por que iria me expor participando de licitações públicas?", pergunta. O Androcur do lote 351 foi vendido pela Ação para vários hospitais no Rio Grande do Sul. "Sou tão vítima quanto os pacientes e hospitais que compraram o produto falso", defende-se ele.
Preso desde agosto de 1998, Élcio Ferreira da Silva entrou com pedido de habeas-corpus duas vezes. A advogada de Silva, Fernanda Glasherster Birke, estava recorrendo do último pedido quando soube que o Tribunal da Alçada Criminal concedeu o fim da prisão preventiva. "Já estava com um pedido em Brasília para conseguir o habeas-corpus", disse. De acordo com o inquérito policial apurado pelo delegado Guerdson Ferreira, do 1.º Distrito Policial (DP) de Santo André, no Grande ABC (SP), na época, Silva teria sido o elo entre os fabricantes do Androcur inócuo e as distribuidoras. A polícia apurou também que Silva foi quem procurou a Botica ao Veado DOuro para produzir os comprimidos de placebo (sem efeito). "Ele não sabia que o Androcur era inócuo", justificou Fernanda. Para o promotor Franco da Silva, no caso do Androcur, "a ganância passou dos limites".
O depoimento de Silva é a principal prova contra o ex-sócio e ex-gerente financeiro da Botica ao Veado DOuro, Ricardo Garcia, que foi solto após conseguir uma liminar de habeas-corpus uma semana após ter sido preso, em outubro. Garcia nega conhecer Silva. "Nunca vi esse criminoso." De acordo com Garcia, a maior prova de que Silva está mentindo está nos primeiros depoimentos do inquérito. Silva teria afirmado que a pessoa com quem tratou na Botica chamava-se Fernando e a descrição dessa pessoa não corresponde à de Garcia. "Se eu estou mentindo, por que é que consegui o habeas-corpus e ele não?", indagou.
Garcia havia saído da Botica oito meses antes de ser indiciado pela polícia. "Tudo mudou na minha vida", disse, explicando estar passando por dificuldades na loja de carpetes do qual é proprietário, em Moema, bairro da zona sul da capital paulista. Para ele, os diretores da farmácia acusaram-no por ser um "alvo fácil", ausente do local. "Alguém precisava levar a culpa", disse. "Foi tudo muito forçado."
O processo criminal contra os envolvidos no caso está em fase inicial. São 19 réus. Franco da Silva explicou que, caso sejam julgados culpados pelo juíz, eles podem pegar penas de dois a seis anos de prisão.
"Se a participação do réu resultou em morte, a lei permite que a pena seja dobrada", afirmou. Atualmente, falta o interrogatório de dois réus antes de se iniciar a segunda parte do processo, a instrução. "É impossível prever quando o processo vai acabar", disse Franco da Silva.


