São Paulo, 22 (AE) - Os promotores do Grupo de Atuação Especial Contra o crime Organizado (Gaeco) vão pedir a quebra do sigilo bancário dos policiais civis e despachantes acusados de envolvimento no esquema de corrupção do Departamento Estadual de Trânsito (Detran). Entre as pessoas que poderão ser atingidas pela medida está o agente policial Mario Paviani, que após ser preso confessou que recolhia dinheiro e entregava R$ 300,00 da propina arrecadada para seus superiores imediatos. Por ter colaborado com as investigações, ele foi solto a pedido dos promotores.
Paviani acusou quatro outros policiais do Detran, entre eles um delegado, de participar do esquema. Em sua casa, os promotores apreenderam R$ 20 mil em um cofre. O dinheiro, confessou o policial, era proveniente do pagamento de propina. Além desses policiais, o Gaeco dispõe dos nomes de seis despachantes que recolheriam o dinheiro com seus colegas para entregá-lo aos policiais em troca de facilidades no Detran.
O pedido do Ministério Público Estadual (MPE) será encaminhado ao juiz-corregedor Maurício Lemos Porto Alves, diretor do Departamento de Inquéritos Policial (Dipo) do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP). "A quebra do sigilo bancário é o caminho natural numa investigação de pagamento de propina", afirmou o promotor Arthur Pinto Lemos Junior. Ele não quis informar quando o pedido de quebra de sigilo bancário vai ser enviado ao juiz, mas hoje o promotor passou o começo da tarde trabalhando no texto do pedido.
De acordo com ele, o Gaeco vai enviar à promotoria de Justiça da Cidadania cópias dos depoimentos e provas colhidas do esquema para que os membros daquela promotoria analisem a possibilidade de abertura de um inquérito civil a fim de apurar eventuais atos de improbidade administrativa por parte de funcionários públicos. Hoje à tarde uma equipe dos promotores do Gaeco fez uma blitz em busca de novos documentos sobre a atuação que envolve o desbloqueio irregular de multas e do Imposto Sobre Veículos Automotores (IPVA) para a transferência e licenciamento de veículos.
Depoimento - O despachante Norival Barbosa, o Índio, preso sob a suspeita de ser um dos despachantes que recolhia dinheiro entre os colegas para repassá-lo aos policiais para licenciar os carros sem passar pela vistoria obrigatória no Detran, foi ouvido hoje pelos promotores do Gaeco. Ele contou detalhes de seu trabalho como despachante e negou todas as acusações que lhe foram feitas pelo ex-despachante Willian Lacerda. Preso na semana passada, Lacerda relatou, em depoimento
a existência de uma verdadeira tabela de propinas existente no Detran para cada serviço ilegal ou irregular feito pelos funcionários do órgão. Seu depoimento foi confirmado pelo de uma despachante, cujo nome não foi revelado, com quem ele trabalha.
"Meu cliente disse a verdade", afirmou o advogado Carlos de Toledo Piza, que defende o despachante. O depoimento começou às 14h15 e terminou 15h15. Na saída, chorou. Só disse "meu Deus". Ao ser indagado se era inocente, respondeu afirmativamente com a cabeça. Também negou com um gesto de cabeça estar envolvido no esquema de propina do Detran. Segundo seu advogado, Barbosa trabalha com três concessionárias de veículos, cuidando da lacração de veículos zero quilômetro.
Barbosa teve a prisão temporária de cinco dias decretada na quinta-feira. O prazo terminava hoje. Os promotores iam analisar hoje à noite a conveniência de manter o suspeito detido por mais cinco dias. Seu depoimento não convenceu os promotores do Gaeco. "Temos provas testemunhais contra ele e vamos buscar as provas materiais nos arquivos do Detran", afirmou o promotor Roberto Porto. De acordo com as denúncias, Barbosa era o chefe do esquema de licenciamento de carros sem que eles passassem pela vistoria do Detran. Para tanto, seria cobrado R$ 30,00 por veículo. Por dia, cada funcionário desse setor do Detran faz de 40 a 60 vistorias.

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