Suspeito de grampo no BNDES é solto
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terça-feira, 28 de setembro de 1999
Por Roberta Jansen e Eliane Azevedo 
Rio, 29 (AE) - Principal suspeito do grampo no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o funcionário da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) Temílson de Resende, o "Telmo", foi solto no fim da tarde de hoje. Ele não ficou nem 24 horas preso: o agente foi detido ontem (28) à noite, após prestar depoimento à Justiça Federal, porque havia um pedido de prisão preventiva contra ele. A juíza da 2ª Vara Criminal da Justiça Federal, Cláudia Valéria Fernandes, revogou a prisão na tarde de hoje.
"Telmo" deixou a sede da Polícia Federal (PF), onde ficou numa cela especial para quem tem curso superior, acompanhado do advogado Carlos Kenigsberg. "Só quero ficar com a minha família hoje", limitou-se a dizer, apressado, antes de entrar no carro. O Ministério Público Federal (MPF) informou que vai pedir ao Tribunal Regional Federal (TRF) a impugnação da decisão da juíza.
A prisão preventiva havia sido pedida há duas semanas pelo MPF, baseada em dois fundamentos: as garantias da instrução processual e da ordem pública. Traduzindo: como o ex-policial federal Célio Arêas da Rocha - que acusou o agente de o ter convidado parar participar do grampo no BNDES - depôs em juízo dizendo que "Telmo" o ameaçou e a procuradores da República, era necessário garantir a segurança dos envolvidos. O ex-policial disse também ter sido chamado por "Telmo" para fazer uma escuta no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi), o que, segundo o Ministério Público, confirmaria a intenção de continuar praticando o crime.
No despacho, a juíza considerou, porém, que, após a "apresentação espontânea" de "Telmo", não constatou "periculosidade em sua personalidade" que permitisse a ela formar a convicção de que ele poderia ter feito ameaças. Ela argumentou ainda que a oferta de grampo no Inpi não ficou demonstrada nas fitas feitas pela Abin da conversa entre "Telmo" e Rocha, que foi legalmente gravada - o encontro aconteceu num almoço realizado em agosto, no Rio, depois que o ex-policial denunciou "Telmo" ao então chefe do Gabinete Militar da Presidência da República, general Alberto Cardoso.
A juíza afirmou também que o desmagnetizador de fitas encontrado na casa de "Telmo" pela PF, por si só, leve à conclusão de que "tal aparelho seja utilizado necessariamente em atividades delituosas".
"Não havia necessidade de manutenção dessa prisão porque o Telmo tem emprego, residência fixa e não tem antecedentes", afirmou Kenigsberg. O grupo de procuradores da República encarregado do caso, porém, decidiu pedir a impugnação da decisão de Cláudia.
Trata-se de um recurso que, antes de ser apreciado pelo TRF, voltará para as mãos do juiz do caso - mas, como ela é substituta, a reconsideração da prisão preventiva poderá ser avaliada pelo titular, Alexandre Libonati de Abreu, que deverá voltar de férias em outubro. Para o grupo, os motivos do pedido de prisão continuam e
solto, "Telmo" pode ameaçar testemunhas e comprometer provas. Os procuradores não concordaram com o fato de, com o inquérito em aberto, "Telmo", que foi indiciado pelo delegado Rubens Grandini, ter prestado depoimento em juízo - uma situação diferente da de Rocha, que não foi indiciado e se apresentoue para contar o que sabia em troca dos benefícios da Lei de Proteção à Testemunha. Eles estranharam também o tratamento, segundo os procuradores, "nada usual", que "Telmo" teria recebido hoje na Justiça Federal.
O grupo contou que o agente se apresentou, coincidentemente, no exato momento em que Grandini embarcava do Rio para Brasília. Ele pediu então ao delegado Luís Pontel - que é de Brasília e está no Rio apenas para conduzir o inquérito do caso Marka - que acompanhasse o depoimento de "Telmo". No entanto, embora Pontel estivesse de posse do mandado de prisão, o agente e o advogado apresentaram como condição a de que ele fosse preso por um delegado do Rio. A juíza concordou.
"Telmo" também não quis ser levado num carro de polícia e foi conduzido à PF no automóvel do delegado de plantão. O agente é amigo do ex-superintendente da PF do Rio Edson de Oliveira e os dois são réus no processo que apura propinas dadas por banqueiros do bicho a policiais federais.


