Suspeitas sobre Kohl favorecem Schroeder Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 06 (AE) - Não se sabe mais em quem confiar. O ex-chanceler alemão, Helmut Kohl, durante muito tempo presidente da União Democrata Cristã (CDU) e considerado no mundo inteiro um "modelo de político", confessa ter usado dinheiro de "caixas negras" em favor de seu partido durante seu longo e notável reinado. E "caixas negras" enormes. Ainda não foram feitos os cálculos, mas já se fala de alguns milhões de marcos (um marco vale pouco menos do que um dólar ou um euro).
Em Berlim, a revelação caiu como um raio: o grande Helmuth Kohl, pai da reunificação, cavaleiro da Europa, permitiu que a CDU fosse alimentada com dinheiro ganho em cima de contratos duvidosos, inclusive a venda de uma refinaria à empresa francesa Elf, a venda de Airbus ao Canadá e à Tailândia, a venda de helicópteros ao Canadá (somente a venda de tanques à Arábia Saudita em 1991 teria aportado à CDU um milhão de marcos).
Desta forma, o sacrossanto Helmuth Kohl e a CDU teriam se comportado como vulgares socialistas ou gaullistas ou centristas franceses? Até mesmo como os italianos? É uma coisa desesperadora.
Para a CDU, o golpe é muito duro. Este partido, embora derrotado e substituído no poder pelo socialista Gerhard Schroeder, conservava em seu brazão esta figura possante e impoluta que é Helmuth Kohl. A cada prova, a CDU "desembainhava" seu Helmuth Kohl, comparava desdenhosamente a vulgaridade de seu sucessor Schroeder, do SPD, ao talento de Kohl.
Hoje, a CDU não poderá mais fazer isso. E procura fazer exatamente o contrário: se distanciar do "pai".
Sangrentos acertos de contas são realizados nos bastidores, todos com o mesmo pano de fundo: aproveitar-se das contrariedades de Kohl para deixar de lado os "velhos" e suscitar uma classe de jovens dirigentes da CDU: discretos, competentes e sobretudo honestos.
Wolfgang Schuble, o homem que há um ano substituiu Kohl à frente da CDU e que até agora era um devoto e um eco dócil de Kohl, rebela- se agora e responde com arrogância a seu velho patrão e faz uma limpeza, afastando os mais intimos assessores do ex-chanceler.
Mas quem está encantado é o chanceler atual, o socialista Gerhard Schroeder. As ligações perigosas de Kohl com as tramóias "por baixo do pano" dão a Schroeder um alívio, uma "bolha de ar". O SPD venceu as eleições regionais de Sarre, de Brandenburg, da Saxônia, da Turíngia e de Berlim. Seu partido estava se derretendo como a neve ao sol. O SPD já sonhava com a sucessão de Schrder: e já se apontava o nome do seu ministro da Defesa, Rudolf Scharping.
A opinião pública estava atribuindo a Schroeder todos os defeitos: ele traira o socialismo ao associar-se à "terceira via" do liberal Tony Blair. Seus discursos eram vazios. E, por trás dele, a sombra majestosa do grande Kohl, escarnecia de cada uma de suas grosserias.
Mas agora ele ficou mais belo: Schroeder fez o Estado intervir para salvar o grupo BTP em risco de falência, o que lhe dá uma esperada cor socialista e dirigista. Repentinamente, ele sobe nas pesquisas. Vê Kohl metido nos negócios escusos de financiamento da CDU. Afasta-se enfim de Tony Blair: no Congresso da SPD, nesta terça-feira, em Berlim, quem lá estará não é mais Blair, mas Lionel Jospin. A grande perdedora é a CDU, embora a cura do rejuvenescimento que lhe foi imposta pelo desfalecimento de Kohl sem dúvida irá dar novas cores ao partido. Mas existe um perdedor ainda maior; a classe política alemã como um todo. Uma pesquisa realizada depois "do caso da CDU" aponta este resultado: um entre cada dois alemães acha que seus políticos são corruptos. Acreditaríamos estar na Itália.





