Londrina acompanhou nos últimos dias o caso do homem que manteve um casal de idosos como refém após um suposto surto psicótico. Segundo informações da Polícia Militar, Roberto Liberato, 46 anos, teria surtado ao descobrir que a família pretendia encaminhá-lo para atendimento psiquiátrico. Ele agrediu o cunhado, invadiu um apartamento e fez o casal de idoso como refém. Foram 12 horas de negociação e, infelizmente, o desfecho foi trágico. Ele morreu de parada cardiorrespiratória após ser atingido por uma arma de choque durante a intervenção da polícia.

De acordo com a psiquiatra Carolina Nicolau, surto psicótico é uma situação registrada quando um paciente rompe com a realidade e, muitas vezes, deixa de reconhecer que está doente.

Segundo ela, em doenças como esquizofrenia, transtorno bipolar com sintomas psicóticos e quadros agudos relacionados à abstinência de drogas, uma crise pode evoluir para um surto. A pessoa pode apresentar alucinações e delírios, como a sensação de estar sendo perseguido ou de que alguém pretende fazer mal a ele.

Carolina explica que, nesses casos, pode ocorrer a chamada anosognosia, termo utilizado na psiquiatria para definir a falta de reconhecimento da própria doença. “Se a pessoa não enxerga que está doente, ela não aceita o tratamento”, afirma a médica.

A alteração pode surgir aos poucos ou aparecer como uma primeira manifestação de uma doença. Segundo a psiquiatra, um fator externo pode desestabilizar a pessoa e desencadear uma crise. Quando há ruptura com a realidade, a situação passa a ser considerada uma emergência médica.

Para a especialista, qualquer mudança significativa no comportamento deve chamar a atenção dos familiares. A pessoa pode começar a agir ou falar de maneira diferente, demonstrar desconfiança, sentir-se perseguida ou apresentar alterações na forma de interpretar a realidade. “As pessoas mais próximas são as que percebem primeiro”, disse Carolina.

Outro indicativo está relacionado à capacidade de manter as atividades cotidianas. Quando a pessoa não consegue mais fazer as atividades do dia a dia como trabalhar ou manter relacionamentos, são indicativos que algo não está bem. Carolina afirma que neste contexto, a família funciona como um termômetro. O problema é que, durante um surto, o próprio paciente pode não reconhecer a necessidade de tratamento. A insistência dos familiares, segundo a psiquiatra, pode aumentar a resistência e até provocar agressividade.

Ela orienta que, nos casos de resistência, a família deve evitar tentar conduzir a pessoa à força. Neste caso, a família deve buscar ajuda profissional, como o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência). As equipes do Samu vão avaliar a situação e quando necessário acionar a polícia para garantir a segurança durante a intervenção. “Eu preciso promover a saúde dessa pessoa, mas preciso garantir a segurança”, afirma a psiquiatra.

Família pode procurar ajuda mesmo sem o paciente

Quando não é possível convencer o paciente a procurar atendimento, a família pode buscar orientação por conta própria. A médica orienta os familiares procurarem os Caps (Centros de Atenção Psicossocial), explicarem a situação e pedirem orientação de como agir com essa pessoa que não quer buscar tratamento.

“A rede pública pode realizar ações para chegar até o paciente. Em situações de crise ou surto, o Samu pode ser acionado e, conforme a necessidade, encaminhar a pessoa para avaliação ou internação”, explica Carolina Nicolau.

Em alguns casos, disse a psiquiatra, pode ser necessária contenção física ou medicamentosa e até mesmo uma internação involuntária. “Por isso existem as internações involuntárias, por isso existe o hospital psiquiátrico, porque essa pessoa precisa de tratamento”, afirma a médica, que disse que a emergência psiquiátrica deve ser encarada de forma semelhante a outras emergências médicas.

Segundo ela, a principal causa de surtos é a interrupção ou a ausência de tratamento adequado. Ela ressalta que a doença psiquiátrica, por si só, não torna uma pessoa perigosa. “O paciente psiquiátrico não é perigoso. A esquizofrenia, por si só, não é perigosa. O que é perigoso é não estar em tratamento”, disse.

Segundo ela, o paciente pode interromper a medicação por se sentir bem e acreditar que não precisa mais dela. A falta de reconhecimento da doença pode dificultar a adesão ao tratamento.

As pessoas que sofrem de transtornos mentais ainda são estigmatizadas e essa realidade contribui para o atraso no tratamento. Algumas ainda têm vergonha e receio de contar à família o que está acontecendo.

“A doença psiquiátrica não é o perigo, a agressividade ou o vilão da história. O vilão da história é a falta de diálogo, a falta de exposição, a falta de pedir ajuda”, afirma a psiquiatra Carolina Nicolau. Ela lembra que uma doença mental não tratada pode se tornar grave e levar a consequências severas, inclusive mortes por suicídio ou homicídio.

A psiquiatra orienta as famílias a não tentarem enfrentar sozinhas uma situação de adoecimento mental. “Existem profissionais capacitados e habilitados para orientá-las”, afirma. Ela lembra que os Caps contam com psicólogos, psiquiatras e equipes especializadas em saúde mental. Pessoas que possuem plano de saúde também podem buscar atendimento pela rede credenciada ou orientação junto aos gestores municipais de saúde. “Se houver dúvidas sobre como agir, procure ajuda”, orienta.

Para ela, buscar apoio profissional permite que a família tenha orientação e suporte para lidar com o paciente e com a própria situação. “O importante é não tentar passar por tudo isso sozinho, pois as chances de dar errado são grandes quando a família tenta resolver tudo sem suporte profissional. Procurar ajuda é sempre o primeiro passo”, disse.

Para a médica, discutir saúde mental contribuí para reduzir o estigma das doenças psiquiátricas e ajuda a população a aprender a reconhecer os sinais precoces de adoecimento.

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