Flavonóides, isoflavonas, polifenóis, carotenóides, glicosinolatos e ômega 3 são algumas das substâncias que comprovadamente protegem as células contra o câncer. Mas, assim como a diferença entre o remédio e o veneno é a dose, esses compostos também podem ser precursores da doença. O que conta é a concentração: consumidos na forma de alimentos, eles protegem. Mas, na forma de suplementos, o efeito pode ser oposto.
O nutricionista Fábio Gomes, da área de alimentação, nutrição e câncer do Instituto Nacional de Câncer (Inca), explica que essas substâncias, presentes principalmente em frutas, verduras e legumes - chamadas de fitoquímicos -, mas também em peixes e cereais, agem de forma antioxidante, protegendo as células saudáveis da agressão dos radicais livres.
''É uma reação em cadeia. No organismo, os radicais livres buscam um par para ficarem estáveis, mas acabam desestabilizando e agredindo as células saudáveis. Essa agressão pode resultar na mutação do gene e na multiplicação das células de forma diferenciada, resultando em câncer. O antioxidante tem a capacidade de se ligar ao radical livre e impedir que este chegue até a célula saudável'', explica.
Pela ação protetora e preventiva, esses compostos são chamados de quimiopreventivos. Exemplo é o licopeno presente em frutas de cor vermelha, como a melancia, goiaba e tomate, o betacaroteno, presente em alimentos amarelo alaranjados, como a laranja, os flavonóides, presentes na uva, no vinho e no chá verde, a luteína, encontrada no espinafre, e o ômega 3, presente em peixes de água salgada, como sardinha e salmão.
Esses alimentos, ressalta a nutricionista Larissa Bussolaro, de Curitiba, são conhecidos como funcionais, pela função de melhorar as condições de saúde e prevenir o aparecimento precoce de doenças degenerativas, como as cardiovasculares e o câncer. ''O chá preto e o chá verde estão na lista dos benéficos. A soja e seus derivados também são grandes aliados. E, os óleos vegetais, como o azeite de oliva, o óleo de linhaça, as nozes e castanhas, complementam a lista'', afirma.
O problema é querer colocar o que está presente na natureza em uma cápsula, de forma concentrada. Segundo Gomes, quando estão em alta concentração essas substâncias podem agir de duas formas: ou não têm o efeito protetor, ou têm efeito adverso, aumentando as chances da doença. ''Então, no mínimo, a pessoa está gastando dinheiro, para não ter efeito. Ou, pior, aumentando as chances de desenvolver câncer'', alerta.
O exemplo ''clássico'', segundo Gomes, é o do betacaroteno, que em alta concentração tem efeito pró-oxidante, e agride as células saudáveis, ao invés de protegê-las. O consumo máximo do composto é preconizado, segundo o nutricionista, em 8 miligramas por dia, mas nos suplementos pode chegar a 25 miligramas. ''Isso é vendido livremente e às vezes prescrito por médicos. Para prevenir contra câncer, a recomendação é não usar suplementos'', ressalta.
Há casos ainda, como o da pimenta, em que o próprio alimento em grande quantidade pode ser o veneno. Quanto mais ardida a pimenta, mais alta a concentração de capsaicina, substância quimiopreventiva, mas também agressiva quando ultrapassada a quantia de 30 miligramas diária. A dose é alcançada com seis pimentas dedo de moça, ou três jalapenos, ou ainda metade de uma malagueta. E ainda há os suplementos: ''Com a cápsula a pessoa pode nem sentir o ardor, mas é como se várias pimentas 'explodissem' no estômago em uma concentração que pode chegar a 450 miligramas, 15 vezes mais que o recomendado''.

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