Superpopulação de peixes provocou mortandade na Lagoa, afirma Garotinho
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quinta-feira, 09 de março de 2000
Por Felipe Werneck 
Rio, 10 (AE) - O governador do Rio, Anthony Garotinho (PDT), disse hoje que a principal causa da morte de 132 toneladas de peixes e crustáceos durante o carnaval na Lagoa Rodrigo de Freitas foi o excesso de peixes, não o lançamento clandestino de esgoto. A declaração foi feita após reunião com representantes da colônia de pescadores da lagoa, que ratificam a análise. "O problema ocorreu porque houve um acréscimo muito grande de peixes , causando descontrole e falta de oxigênio para essa superpopulação", disse Garotinho.
De acordo com os pescadores, o volume da pesca aumentou 100% de janeiro para fevereiro. De sete toneladas para14,5 toneladas de peixes da lagoa comercializados em fevereiro. "Nossa média histórica - , que é de seis toneladas /mês, aumentou muito esse ano e não temos estrutura para esse volume"
afirma o pescador Ricardo Mantovani, de 40 anos, que pesca desde os 12 na lagoa. I O biólogo Mário Moscatelli, que pediu demissão da Secretaria de Estado do Meio Ambiente após o desastre por discordar da política ambiental do governo, disse não acreditar na explicação. "Não acredito que o excesso seja a principal causa, houve um acúmulo de fatores, como o lançamento de esgoto, que ocorre porque não há vontade política desse bando de burocratas para resolver o problema", disse ele, que trabalha há 11 anos na recuperação dos manguezais da Rodrigo de Freitas. Para o pescador Mantovani, o derrame de esgoto na lagoa "sempre existiu, mas aumentou este ano".
Esgoto - Segundo Garotinho, a Companhia Estadual de águas e Esgotos (Cedae) "não lança nem um litro" de esgoto na lagoa. "Os dejetos, que não foram a principal causa da morte de peixes, chegam por ligações clandestinas nas galerias de águas pluviais, que são da prefeitura", disse. O município alega desconhecer o lançamento de esgoto, mas não há um controle efetivo das galerias.
"Há uma campanha para desmoralizar a Cedae e vendê-la a qualquer custo", disse Garotinho, que prepara um programa de reestruturação da empresa. Hoje ele anunciou um convênio para o acompanhamento das condições ambientais da lagoa, como o nível de oxigênio na água, que será assinado na próxima semana entre os pescadores e técnicos da Universidade do Estado do Rio (Uerj). O oceanógrafo David Zee vai coordenar o trabalho que, segundo Garotinho, nunca foi feito.
Projeto - O presidente da fundação municipal Rio águas, Carlos Dias, disse que deverá receber em dois meses o estudo encomendado ao Laboratório Nacional de Engenharia Civil de Liboa (Lnec) - responsável pelo projeto do Aterro do Flamengo - sobre soluções para os problemas da lagoa. Uma das alternativas em discussão para melhorar o nível de oxigênio da água é o alargamento do canal do Jardim de Alah, que liga a lagoa à orla marítima, de 10 para 32 metros, e o aumento da profundidade, de 2 para 3,5 metros.
"Dou o dinheiro na hora que o prefeito quiser, mas para isso ele precisa me apresentar um bom projeto, que seja viável tecnicamente", disse Garotinho. Esse projeto, se for efetivado, causaria uma transformação completa do ecossistema da lagoa, que hoje é predominantemente de água doce. "Se não houver intervenção do homem, a tendência da lagoa é sumir", afirmou Dias.
Multas - O presidente da Cedae, Alberto Gomes, disse que não vai pagar os R$ 5,58 milhões que a empresa deve em multas ao município por suposto lançamento de esgoto na lagoa. "A Cedae tem respeito pelo dinheiro público." A empresa terá R$ 40 milhões este ano para o programa de esgotamento sanitário da zona sul, mas Gomes não soube detalhar os projetos de engenharia que serão executados.
Promotor - Na terça-feira (14), o promotor Sávio Bittencourt, da Equipe de Proteção ao Meio Ambiente do Ministério Público do Estado, deverá ouvir Moscatelli e o secretário de Estado do Meio Ambiente, André Corrêa. "Tanto o Estado como a Prefeitura têm responsabilidade na solução global do problema na lagoa", disse o promotor. Também está marcada para sexta-feira uma audiência no Conselho Regional de Arquitetura do Rio para discutir o problema.
Mancha - A mancha amarela que apareceu ontem (09) na orla do Rio já se estende do quebra-mar, na Barra da Tijuca, até a Praia de Copacabana. Novamente, há polêmica entre Estado e município sobre as causas do problema. Para a Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (Feema), a mancha é um fenômeno natural provocado pela chuva, que traz detritos para o mar. Para o secretário municipal do Meio Ambiente, Maurício Lobo, "é esgoto que vem da Rocinha ou de condomínios da Barra". A secretaria colheu amostras da água para análise.


