A cadeia pública de Sertanópolis, construída no final da década de 40, vivenciou na noite desta quarta-feira (30) mais um episódio proveniente da superlotação. Presos da unidade se amotinaram depois que outro detento, que chegava de uma audiência de custódia, se recusou a entrar na carceragem. "Eles começaram a fazer algumas exigências, reclamaram da comiza azeda e quebraram quatro portas, além de danificar outros setores. A principal insatisfação é com as condições das celas, que estão péssimas. Delegacia não é lugar de encarcerado, mas boa parte delas, pelo menos aqui no Paraná, não têm espaço para ventilação. Quando há esse acesso, o uso é para introduzir drogas, celulares e outros itens proibidos", disse o delegado Damião Benassi Júnior, responsável pelo local.

Ele pontuou que nenhum policial ficou ferido durante o motim. "O preso estava sendo conduzido por agente de carceragem, até porque temos um sistema de travas que impede, até certo ponto, qualquer fuga. Ninguém ficou machucado. Assim que o alvoroço começou, foi preciso chamar o SOE (Setor de Operações Especiais do Departamento Penitenciário do Paraná) para acalmar os ânimos dos detentos. Do lado de fora, a Polícia Militar teve que intervir pela revolta dos familiares, que até tentaram invadir a delegacia", comentou.

Mesmo com o encerramento do motim às 20h desta quarta, o delegado disse que a situação da cadeia ainda é crítica. "A capacidade é de apenas 12 pessoas, mas estávamos com 64. Seis foram transferidos após a confusão, mas 58 continuam aqui. É difícil administrar o caos. O Estado não dispõe de penitenciárias o suficiente para comportar todo mundo. Nós ficamos trabalhando para reparar os prejuízos até a madrugada. O colapso é generalizado. O Ministério Público já promoveu ação civil pública para interdição, mas o panorama não melhora. Cadeia em delegacia sempre é um barril de pólvora. O jeito é estar preparado e pronto para tudo", informo.

Benassi Júnior descreveu como os policiais são prejudicados atuando em um ambiente insalubre e inadequado de trabalho. "Do nosso ponto de vista, a delegacia deveria funcionar como um escritório de investigação, mas a superlotação é ilegal tanto para o servidor público quanto para o detento, que deveria ser submetido ao que rege a Lei de Execução Penal", disse.

O delegado de Sertanópolis suspeita que a confusão protagonizada pelos detentos pode ter acontecido por apreensões recentes de entorpecentes e aparelhos telefônicos. "No dia 21 de janeiro, um criminoso entrou pelo telhado e tentou passar pelas janelas que vazam para o pátio de sol. Ele pulou o muro de quatro metros com uma mochilas nas costas e passou diversos materiais para os presos. Na manhã seguinte, chamamos o SOE. Eles retiraram 50 celulares, 2,8 kg de maconha e uma maquita para serrar grades. Seis dias depois, outra tentativa. Desta vez, foram impedidos de entrar 30 aparelhos e mais droga. Isso leva a crer que esse motim tenha ocorrido pela repressão que a polícia tem feito", comentou.

Damião Benassi Júnior confirmou que já identificou os responsáveis pela depredação. "Seis pessoas comandaram a quebradeira. Eles poderão responder por dano qualificado, até porque se trata de um patrimônio público, e pelo motim".

A situação também não é fácil para quem defende os acusados. Para a advogada Nayara Larissa Andrade, o problema maior é que "muito preso primário fica privado de liberdade pela decretação das preventivas. Outro ponto é que condenados estão cumprindo pena em um local destinado apenas aos provisórios. Eu fui conversar com um cliente e ele reclamou que não está sendo ofertado atendimento médico. Teve opressão por parte da PM. Os agentes agrediram familiares, que estavam desesperados pra saber notícias dos parentes", apontou.

A reportagem não conseguiu contato com o 15º Batalhão da Polícia Militar de Rolândia.

mockup