Washington, 14 (AE) - Depois de ter usado amplamente o Fundo Monetário Internacional (FMI) como instrumento de sua estratégia para enfrentar as crises financeiras que ameaçaram a economia global a partir da quebra da ásia, em 1997, mobilizando mais de US$ 100 bilhões em recursos oficiais para os pacotes de salvação de várias economias, os Estados Unidos querem agora reformar o Fundo, reforçando seus poderes de supervisão sobre as economias nacionais mas limitando, ao mesmo tempo, o escopo de suas intervenções como provedor de crédito. "Eventos recentes reafirmaram que o Fundo é indispensável", disse o secretário do Tesouro, Larry Summers, hoje, ao apresentar sua proposta de reforma do FMI em discurso na London School of Economics."Mas como disse muitas vezes, dizer que o Fundo é indispensável não significa dizer que temos que estar com o Fundo que temos hoje".
Depois de lembrar que o fluxo de capitais privados para o mundo em desenvolvimento saltou de US$ 170 bilhões, nos anos 80, para US$ 1,3 trilhão na década que está terminando, o secretário do Tesouro disse que o FMI precisa, de agora em diante, "tornar-se mais limitado em seu envolvimento financeiro com os países, emprestando de forma mais seletiva e a prazos mais curtos". Segundo Summers, o FMI "pode e precisa estar na linha de frente da resposta internacional às crises financeiras (...), mas não deve ser fonte de financiamento barato para países que tem acesso ao mercado privado de capitais, ou um programa de assistência para países que não podem livrar-se do mau hábito das más políticas". Ou seja, o FMI deve mudar para assumir um papel suplementar e não de substituto dos recursos privados.
O Fundo tem hoje programas de financiamento de até três anos de duração e é credor de perto de US$ 100 bilhões de 46 de seus 182 países membros. Para Summers, além de tornar-se mais seletivo no financiamento dos países, o FMI deve "concentrar seu foco no fluxo de informações dos governos para os mercados e os investidores; estar atento aos sinais de vulnerabilidade e aos fundamentos macroeconômicos dos países-membro; enfatizar seu papel de catalizador de soluções de mercado; assumir um papel mais limitado nos países mais pobres focalizado na promoção do crescimento e na redução da pobreza; e modernizar-se como instituição".
A proposta americana é, em parte, uma resposta às fortes críticas que a administração Clinton passou a enfrentar no Congresso e no mundo acadêmico pelo uso expansivo que de recursos públicos, via FMI, para combater a instabilidade financeira a partir da crise asiática. Ela coincide, ao menos em espírito, com recomendações preliminares aprovadas por uma comissão que o Congresso criou para estudar o papel das instituições financeiras internacionais após a crise asiática. O recente colapso da reunião ministerial da Organização Mundial de Comércio, em Seattle, sob pressão de protestos públicos de organizações não governamentais que também criticam as políticas recessivas do FMI, entrou nos cálculos do Tesouro e animou Summers a abrir a discussão.
O plano de Summers deve gerar resistência tanto dos países industrializados como das nações em desenvolvimento durante a primeira reunião do chamado Grupo dos 20, que começa amanhã (15) à noite, com um jantar, em Berlim.
A nova missão que Washington quer dar ao Fundo, revertendo a instituição a seu papel original de bombeiro de crises de balanço de pagamentos, tem também o óbvio objeto de condicionar o processo de escolha de um sucessor do diretor-gerente do Fundo
o francês Michel Camdessus, que renunciou ao posto no mês passado e deve deixá-lo em meados de fevereiro. A seleção do chefe do Fundo é feita, tradicionalmente, pela Europa. Em conversa com repórteres, na segunda-feira, Summers sinalizou a oposição dos EUA ao único candidato oficialmente lançado até agora, o vice-ministro das Finanças da Alemanha, Caio Koch-Weser. A descrição de Summers sobre os atributos que deve ter o futuro chefe do Fundo - "habilidade de liderança comprovada, forte experiência na área financeira que representa o coração da missão do FMI, capacidade de mobilizar consenso ao redor do mundo e compromisso para continuar a adaptar e reformar o FMI"- fez o nome do ministro das finanças da Inglaterra, Gordon Brown, entrar em alta na bolsa de especulações.
O grupo dos 20, que foi concebido como um foro de discussão de políticas que impeçam a repetição de crises sistêmicas, é formado pelas sete potências industrializadas - EUA, Japão, Alemanha, França, Itália, Inglaterra e Canadá - e por onze nações emergentes - Brasil, Argentina, Austrália, China, Índia, México, Rússia, Arábia Saudita, áfrica do Sul, Coréia do Sul e Turquia. O ministro da Fazenda, Pedro Malan, e o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, representam o Brasil no encontro, que será presidido pelo ministro das finanças do Canadá, Paul Martin.
Em conversas com jornalistas, Summers disse que o G-20 é um foro útil para a discussão de uma nova arquitetura financeira internacional e diminuir o espaço para novas crises. "O maior desafio financeiro internacional hoje é a administrar o fluxo de capitais entre o mundo industrializado e o mundo em desenvolvimento, de maneira a que ele se torne estável e susentável", disse Summers. "Para que isso seja bem feito é importante que representantes dos dois tipos de países se reunem". Segundo secretário do Tesouro, "a institucionalização do G-20 como um grupo permanente e informal é um passo útil que, ao longo do tempo, permitirá que se faça progresos na consideração dessas questões e dará um maior equilíbrio a essas discussões do que foi a tradição".
Além da definição do status jurídico do novo grupo, a agenda do encontro, preparada numa reunião preliminar em Vancouver, no mês passado, prevê que os ministros discutam medidas internas e externas para responder a áreas de vulnerabilidade de suas economias. Esta incluem regimes de câmbio, de falência de empresas e de supervisão, bem como a produção e disseminação de informação sobre sobre as contas nacionais.

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