Paulo San Martin
De Dourados
Especial para a Folha
O suicídio coletivo de três índios das etnias guarani e kaiowá e a tentativa de suicídio de outros cinco adolescentes, frustrada na última hora por um grupo de índios adultos, acendeu o estopim de um conflito étnico que assume proporções incontroláveis na região de Dourados, no Mato Grosso do Sul. Um quarto índio está hospitalizado em coma na UTI do Hospital Evangélico e o quinto foi medicado e liberado no mesmo dia. Os índios, com idades entre 12 e 20 anos, beberam veneno, na noite de quinta-feira da semana passada, em um barracão dentro da aldeia Panambizinho, onde viviam, no Distrito de Panambi, a 20 quilômetros de Dourados.
Os suicídios ocorreram em um momento de tensão extrema entre colonos brancos e índios, que disputam a posse de uma área de 1.180 hectares de terras em Panambi. O distrito, colonizado pelo governo Getúlio Vargas na década de 40, tem mais de 300 pequenos e médios proprietários rurais e é uma das primeiras experiências bem sucedidas de reforma agrária no Brasil (leia texto nesta página).
Em 1995, o então ministro da Justiça, Nelsom Jobim, assinou portaria transferindo parte desta área aos indígenas. Desde então o conflito se arrasta. E os colonos dizem que estão dispostos a reagir com violência a qualquer tentativa de invasão. ‘‘Se isso acontecer, vai haver muitas mortes. Dos dois lados’’, garante Dionésio Marques Rosa, presidente da Comissão dos Colonos de Panambi.
A violência corre o risco de explodir nos próximos dias. Duzentos e cinquenta líderes indígenas começaram a chegar este final de semana às aldeias da região para uma Aty-Guassu (Grande Assembléia), representação máxima dos índigenas, que ocorrerá na aldeia Limão Verde, em Amambaí. Os líderes da Aty-Guassu ameaçam trazer para Dourados 18 mil índios de todas as regiões do Estado para cercar e invadir as terras dos colonos. E eles não parecem estar blefando.
Há um ano, os guaranis e kaiowás da região mudaram seus hábitos pacíficos e fizeram as primeiras invasões de terras de sua história (leia texto nesta página). ‘‘A Funai (Fundação Nacional dos Índios) já deveria ter feito a demarcação de todas as nossas áreas. Mas diz que não tem recursos para isso. As terras são nossas e a saída que temos agora é invadir as propriedades e aguardar uma decisão da Justiça. Esta é uma briga entre a lei dos brancos e a lei dos índios’’, diz o cacique guarani Adolfinho Nelson, 67 anos, o líder indígena mais respeitado no Mato Grosso do Sul.
O suicídio coletivo ocorrido na semana passada não tem relação direta com o conflito pelas terras de Panambi. Os parentes dos jovens índios afirmam que eles se mataram por desilusões amorosas ou por falta de esperança e perspectivas de vida. Mas para as lideranças indígenas os suicídios revelam o limite do desespero a que chegaram milhares de guaranis e kaiowás que vivem na região.
Os primeiros suicídios de índios foram registrados no Mato Grosso do Sul no final dos anos 80. Desde então, mais de 300 índios já apareceram enforcados ou mortos por ingestão de veneno, a maior parte deles na aldeia de Dourados. O caso mobiliza a opinião pública internacional desde 95, quando ocorreram quase 100 suicídios em menos de oito meses.
Mas os suicídios em grupo são uma prática recente e nunca haviam envolvido um grupo tão grande de adolescentes. ‘‘Chegamos ao limite. Não podemos mais esperar por uma solução do governo ou da Funai. Nossa gente está se matando e nós vamos agir’’, promete o indígena Wilson Matos, chefe do Núcleo Indígena de Dourados, responsável pela coordenação de todas as aldeias da região. Para o líder guarani Rosalino Ortíz, a única coisa que dá segurança ao índio é a posse da terra. Participaram Alessandra Campos e Osmar SantosTrês índios das etnias guarani e kaiowá em Dourados (MS) já morreram e outros cinco tentaram a morte bebendo veneno
Fotos Alessandra CamposOS DOIS LADOSEnterro de dois dos três índios guarani e kaiowá que se suicidaram (acima); ao lado, Jonílson Araújo mostra documento expedido pelo governo Getúlio Vargas, na década de 50

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