Paris, 12 (AE) - A época é propícia ao "arrependimento", ao remorso ou à confisão de culpa. O papa não cessa de pedir perdão pelos erros cometidos pelos papas no passado. Muitos deputados e alguns ministros franceses se apresentam aos juízes para dizer que receberam, irregularmente - "mas, juram eles, sem se dar conta disso" - alguns milhões de francos. E agora a Suíça salta "em vôo" neste grande "trem dos remorsos": confirma que por trás de sua vitrine rutilante, distinta, humanitária e higiênica, se ocultam podridões.
É preciso esclarecer que a Suíça só "embarcou" nesse "trem dos remorsos" empurrada por trás e vigorosamente por alguns "chefes de estação", geralmente judeus. É normal: são os judeus que constituem o ponto central do "pecado" suíço no tempo do nazismo. Qual é esse pecado? Simplesmente, a Suíça, desempenhou um papel lamentável durante a guerra por sua cumplicidade com o regime nazista: "As autoridades suíças, intencionalmente ou não, contribuiram para que o regime nazista pudesse atingir seus objetivos", diz um documento oficial.
Não é uma revelação. Já se suspeitava. Mas, atualmente, são as comissões de investigação, o relatório Volcker, há dois dias, e, agora, as 800 páginas do relatório "La Suisse et les refugiés" (A Suíça e os Refugiados) redigido por historiadores internacionais, que mostram a chaga purulenta.
As operações escusas dos bancos suíços (inclusive o banco Central suíço) com o ouro dos judeus perseguidos já eram revoltantes. Talvez seja ainda pior a acusação que agora se levanta: durante o nazismo, as autoridades suíças foram oficialmente indiferentes, glaciais (para não empregar uma palavra mais infamante) em relação aos refugiados judeus. Dois pecados: a letra "J" (judeu) aplicada a partir de 1938 sobre os passaportes dos judeus alemães. E depois, em 1942, o fechamento da fronteira da Confederação Helvética aos refugiados alemães perseguidos "pelo simples fato de sua raça".
A letra "J" primeiramente. Os suíços temiam que seu belo país ficasse "judaizado" com a chegada de todos esses judeus que fugiam da barbárie nazista contra os judeus. Daí nasceu a idéia de propor aos alemães um sinal distintivo sobre os passaportes dos "alemães não-arianos".
Mas, logo isso não foi mais suficiente e a Suíça encontrou "a solução" em 1942. Decidiu mandar sistematicamente de volta os refugiados que se apresentassem às fronteiras. É p reciso refrescar a memória a respeito desse tempo: esta medida era equivalente à pena de morte.
Mas - dirão os Que amam a Suíça e os suíços (é o meu caso) - as atividades dos nazistas contra os judeus eram mal conhecidas, estavam envoltas em sombras. Ora, o relatório responde também a esta dúvida: Não, em 1942, as autoridades federais suíças sabiam muito bem o que esperava a estas pessoas enviadas de volta. Mas então - afirmarão os amigos da Suíça - pode ter acontecido isso, mas muito raramente. E o relatório responde uma vez mais: durante toda a guerra, a Suíça acolheu 21 mil judeus. E mandou de volta 24 mil.
Aí está a brava Suíça. Não tenho vontade de falar mal de um paÍs que me parece adornado de muitas virtudes e talentos. Mas, nesta ocasião, percebemos uma vez mais que nenhum país está isento da mais terrível crueldade, quando as circunstâcias são duras. A França o demonstrou sob o marechal Pétain e durante a guerra da Argélia, os Estados Unidos na guerra do Vietnã e em outros lugares. O Vietnã, em sua guerra contra a América. O Camboja no tempo de Pol Pot. A Coréia do Norte e às vezes a do Sul. A China. A Alemanha, sem falar da União Soviética, ontem, da Rússia, hoje, na Chechênia e das repúblicas empossadas de sangue da áfrica central e da Argélia dos islamitas e dos palestinos e dos judeus e do Marrocos do rei Hassan, etc. etc.
Meu Deus, como é triste e como é longa esta ladainha!

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