Sucessor de Hassan II é um enigma Do correspondente GILLES LAPOUGE
Paris, 26 (AE) - O rei Mohamed VI, um dos últimos monarcas de "direito divino". irá assumir o poder sucedendo a seu pai, Hassan II, falecido depois de um longo reinado que deixou uma imagem complexa: por um lado, um soberano pomposo e um gênio político, mas, por outro, um despota implacável, cujos "súditos" (não "cidadãos") vivem sempre esfarrapados.
Ora, depois do reinado soberbo e terrível de Hassan II, seu sucessor (seu filho Mohamed VI) preocupa como uma página vazia. Ele jamais foi associado ao poder por seu pai. Esse jovem apagado, meio insípido, é um enigma. Foi visto apenas distribuindo casacos aos pobres, pronunciando palavras inúteis, sorrindo timidamente.
O vazio tem algo de fascinante que pode ocultar surpresas, felizes ou sombrias. Isso explica a insistência com que os especialistas estão analisando esse "vazio": Mohamed VI será um monarca sem força , um "vaso de porcelana"? Ou, como seu pai, Hassan II, tomará em suas mãos as rédeas do Marrocos? E, nesta segunda hipótese, qual será a forma à qual dará preferência na herança de seu pai? A feudal ou a modernista?
Estas perguntas são inúteis. Mais sério é indagar a respeito das perspectivas que ele deverá abrir e, em primeiro lugar, a respeito do papel do Marrocos no mundo.
A qualidade dos chefes de Estado que vieram a Rabat no domingo atesta que a política externa de Hassan II foi brilhante. Neste campo, Hassan II foi bem sucedido. Manteve sob rigoroso controle , graças à sua condição de "comandante dos crentes" e descendente do "profeta Maomé" os "islamitas" que frequentam as faculdades e os subúrbios. Protegeu os "judeus" - caso único num país árabe. Agiu com audácia, para conseguir a concórdia entre Israel e a Palestina. Melhor ainda; mesmo morto, Hassan II continuou sua obra, se se pensar nos encontros que seus funerais permitiram em Rabat entre inimigos, desprezadores ou rancorosos. (Seria interessante perguntar como ficaria a política externa se, de vez em quando, um rei ou um grande presidente não tivesse a idéia de morrer?...).
No âmbito interno, a obra de Hassan II é menos brilhante: certamente, depois da independência, outorgada pela França, ele conseguiu manter a unidade do reino. Mas, em três áreas, sua obra fracassou - na ordem pública, na economia e na honestidade.
Sem dúvida alguma, Hassan II manteve a ordem pública, mas ao preço de punições usadas em outras épocas - em pleno deserto, uma masmorra, onde os membros da oposição ficavam apodrecendo por dezenas de anos, entre o sol, a morte e a loucura.
Felizmente, há alguns anos, estas repressões acabaram. As prisões se esvaziaram. A imprensa é livre.
A economia é uma calamidade, apesar do apoio representado pelo cultivo da maconha e o comércio de drogas entorpecentes. É imensa a miséria.
Farrapos e carestia. Sem dúvida, os turistas tiram proveito disso, pois Marrocos lhes oferece tudo o que eles amam: cidades suntuosas e medievais, Mercedes nas autoestradas, hotéis das "Mil e Uma Noites", mas também cidades de terra ocre nas quais vegetam camponeses, desempregados, analfabetos. Por trás de sua fachada luxuosa, o Marrocos é triste. A ONU o classifica em 125º lugar por escolaridade, cuidados médicos e PIB por habitante.
Terceiro fragelo: a corrupção. Monarca de direito divino, cercado de uma multidão de cortesãos ávidos e complacentes, o rei permitiu o desenvolvimento de uma corrupção gigantesca, na qual, ano após ano, se dissipam todos os frutos do trabalho da multidão de camponeses.
Estes são os grandes desafios oferecidos ao rei Mohamed VI. E é preciso acrescentar ainda outros dois: Hassan II , dotado de uma boa prática da teologia muçulmana, soube falar aos "ulemás" e desativar a "bomba islâmica" que a miséria mantém no Marrocos. Será que seu filho, Mohamed VI, saberá fazer face aos temíveis "doutores da fé islâmica"?
Enfim, alguns sonham com uma outra realização: que ele continue a obra de democratização esboçada por seu pai nos últimos anos e transforme a monarquia de direito divino numa monarquia constitucional.





