Rio, 04 (AE) - O governador do Rio, Anthony Garotinho (PDT), confirmou hoje que os telefones celular e residencial do subsecretário da Segurança Pública Luiz Eduardo Soares foram grampeados e atribuiu o episódio a policiais insatisfeitos com sua política para o setor, contrária à violência e à corrupção. Segundo ele, os mesmos setores preparavam uma "armação" contra o comandante da Polícia Militar, coronel Sérgio da Cruz, e pressionam o chefe da Polícia Civil, delegado Carlos Alberto dOliveira, para derrubá-los. O governador afirmou que estava dando um recado aos chantagistas: seu governo não vai se intimidar.
Garotinho não disse se a "armação" seria a investigação sobre envolvimento de policiais militares com o jogo do bicho, apontada pelo coronel Romeu Ferreira, ex-chefe do Centro de Inteligência e Segurança Pública (Cisp), como motivo para o seu afastamento do cargo. Oficial do Exército, Ferreira comandava o Cisp desde o governo Marcello Alencar, quando, disse o atual governador, eram comuns os casos de extorsão contra apontadores da contravenção, que eram presos em quartéis da PM e libertados mediante pagamento. "Isso acontece desde o período em que ele (Ferreira) estava lá, por que só está falando agora?"
O grampo, denunciado pelo subsecretário, e ameaças de morte que Soares recebe desde a transição de governo são parte da briga entre duas concepções de segurança. De um lado, alinhado com o governador, está o subsecretário, defensor dos direitos humanos e da modernização. De outro, setores tradicionais, partidários da truculência e em alguns casos envolvidos com a corrupção.
"Já avisei", disse o governador. "Acabou a mineira (extorsão), e quem fizer está fora." Garotinho contou que determinou ao secretário da Segurança Pública, general José Siqueira, que avisasse aos comandantes da PM que não admitiria que os policiais extorquissem dinheiro dos bicheiros.
O governador afirmou que as ameaças pioraram depois que anunciou que seria sumária a punição contra policiais de Niterói acusados de estuprar uma jovem. "Estavam acostumados a um processo lento, em que, no fim das contas, tudo ficava em casa"
disse.
Garotinho preferiu não dar ainda os nomes dos policiais que estariam promovendo as gravações clandestinas e não quis dizer se atribuía as gravações ao Cisp, mas também não negou. Soares foi na mesma linha.
"Não quero pré-julgar ninguém, seria leviano", afirmou. "Sempre ficou muito claro para mim que o problema não era pessoal, mas político." Segundo ele, os chantagistas também estão fazendo "outro tipo de pressão" (cuja natureza não revelou) sobre o comandante-geral da Polícia Militar. O Cisp, porém, não será dissolvido. A primeira missão do seu novo comandante, ainda a ser escolhido, será fazer uma investigação para chegar aos autores dos grampos.

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