Rio, 14 (AE) - Além da investigação sobre a fita de vídeo em que aparece num churrasco ao lado de um traficante, o deputado federal Wanderley Martins (PDT-RJ), sub-relator da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico, responde a um inquérito por corrupção, que se arrasta na Polícia Federal desde 1994. Ele recebeu um depósito bancário no valor de Cr$ 10 milhões - cerca de US$ 2,5 mil - do doleiro libanês Elias Kanaan
acusado de lavagem de dinheiro e contrabando de armas.
Martins, na época, era delegado federal, lotado na Delegacia Fazendária. Outros delegados e funcionários da PF apareceram na agenda do doleiro. A Justiça decretou a quebra do sigilo bancário, entre 1990 e 1995, dos acusados. O laudo do Instituto Nacional de Criminalística (INC) constatou que, em julho de 1992
quando houve o depósito, a diferença entre o total de créditos bancários movimentados na conta de Martins e o salário recebido por ele foi de 292%. Em maio do mesmo ano, chegou a 570% e, no total do ano, a diferença ficou em 360%. No ano anterior, essa diferença era de apenas 20%. Em 1994, a variação chegou a 1.138% e em 1995, 414%.
Um cálculo preparado pelo Ministério Público Federal aponta ainda que, a partir de 1992, começou a surgir uma diferença - para mais - entre os créditos bancários de Martins e sua declaração de renda. No ano em que seu nome apareceu na agenda do doleiro, a variação foi de 102,3%, chegando a 387,19% em 1994. Apesar disso, tanto a perícia do INC como a Receita Federal consideraram que não havia incompatibilidade entre os ganhos declarados e os recebidos pelo deputado e ele não consta da ação fiscal movida pelo MPF, em outubro, para investigar as declarações de renda dos acusados e preparar uma possível denúncia de sonegação fiscal.
Incompatível - "Esses fatos, na minha avaliação, por si só incompatibilizam o deputado Wanderley Martins com a investigação que está sendo precedida pelos membros da CPI do Narcotráfico", afirmou o deputado federal Antonio Carlos Biscaia (PT-RJ), que desde o início da CPI vem pedindo investigações sobre seu colega de comissão. Com a eleição de Martins, o inquérito passou para o Supremo Tribunal Federal (STF) e está sob pedido de vistas do procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro.
O inquérito corre sob segredo de Justiça. Baseado nisso, Martins negou hoje que houvesse qualquer laudo mostrando diferenças entre seus ganhos e sua movimentação bancária. "Nada aponta para mim", garantiu. Ele afirmou que o depósito foi fruto de uma troca de dólares.
Segundo o deputado, que depôs à PF apenas no início deste ano - cinco anos depois de iniciado o inquérito - ele fez a transação por um intermédio de um amigo, o delegado Aloísio Borba, também investigado no inquérito. "Ele é quem conhecia o Kanaan, não eu", disse. Em seu depoimento, o doleiro negou conhecer Martins.
O inquérito original foi presidido pelo delegado Onézimo das Graças Sousa e, depois, pelo delegado Zulmar Pimentel, ambos lotados em Brasília e designados para as investigações no Rio. No ano passado, porém, alegando motivos econômicos, a direção-geral da PF transferiu o inquérito para a superintendência do Rio - ou seja, os policiais cariocas é que estão investigando seus colegas. Não há indiciados, nem prazo para que o relatório do delegado Julio Bilharinho seja entregue.
"Esse inquérito está no limbo", queixou-se o procurador da República Maurício Rocha, encarregado do caso. Ao passar adiante o trabalho, o delegado Pimentel fez um relatório parcial
no qual não poupou os acusados - entre eles, o deputado. "Há indícios veementes contra os investigados", afirmou Pimentel.

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