Stedile faz palestra sobre movimentos camponeses para jovens militantes
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domingo, 04 de julho de 1999
Por Clayton Levy 
Campinas, SP, 05 (AE) -O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra está promovendo, em parceria com a Universidade de Campinas, um curso para 1.200 jovens militantes de 22 Estados , no Ginásio de Esportes da universidade. O curso Realidade Brasileira começou na sexta-feira .Hoje o dia foi marcado pela crítica ao governo Fernando Henrique Cardoso. Antes da palestra do principal líder do movimento, João Pedro Stedile, os participantes assistiram a dramatizações que destacaram a violência da polícia contra as mobilizações populares.
Os jovens encenaram um quadro no qual um pelotão da Polícia Militar bate e mata sem-terra. Em outro momento os policiais se ajoelham diante do personagem Tio Sam, que simboliza os Estados Unidos. A platéia reagiu à cena cantando em coro: "Fora já, fora já daqui, FHC e FMI".
Stédile - Abordando o tema "A Questão Agrária no Brasil: Reforma Agrária e Movimentos Camponeses", Stedile fez um retrospecto histórico das lutas componesas em todo o mundo. Ao falar sobre o Brasil, disse: "Anotem aí em seus cadernos: não há reforma agrária no Brasil porque a maior parte das terras ainda continua concentrada nas mãos de latifundiários".
Stedile convocou os participantes para a marcha popular que o MST pretende promover a partir do dia 27 de julho, em protesto contra o governo FHC. Serão 1.300 quilômetros de caminhada, do Rio de Janeiro até Brasília. Além do MST, o evento está sendo organizado pela Central Única dos Trabalhadores (CUT)
Central do Movimento Popular e Movimento das Mulheres Rurais.
Apesar do forte apelo à mobilização, Stedile disse que o objetivo principal do curso não é formar novas lideranças dentro do MST. "Não se fazem líderes em salas de aula", afirmou. "Queremos que os filhos dos camponeses tenham acesso ao conhecimento sobre a realidade brasileira", disse. Para ele, muitos jovens já estão assumindo posições de liderança por meio da experiência diária em suas próprias comunidades.
"Queremos passar para esses jovens a verdadeira história do Brasil, principalmente a história das lutas populares", disse um dos organizadores do curso e integrante do setor de formação do MST, Adelar João Pizetta. "É indispensável que eles conheçam, por exemplo, episódios importantes, como a Guerra de Canudos", explica. Além de aspectos históricos, o curso, segundo Pizetta, também destacará a necessidade de desenvolver valores humanos, como a solidariedade.
Amanhã (06) os participantes assistirão uma aula sobre A Cultura Transformadora, a cargo de Gilberto Vasconcelos, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e, a tarde, uma aula sobre A Cultura de Massa Hoje, que será dada por Alcione Araújo.
"Espero que esses encontros ajudem a juventude a assumir o seu papel e questionar as injustiças sociais", disse Charles Trocate, um dos jovens que participam do curso. Há três anos ele levou um tiro na perna direita durante confronto entre a Polícia Militar do Pará e os sem-terra que ocupavam a Fazenda Macaxeira, no massacre de Eldorado dos Carajás. Hoje, aos 21 anos, ele se prepara para ser um dos líderes do movimento na região.
"Para isso, é preciso conhecer a fundo os problemas brasileiros", diz Trocate, que atualmente mora com a família numa área de assentamento em Parauapebas. Segundo ele, muitos sem-terra estão morrendo no Pará, sem que as autoridades tomem providências. "Todas as grandes fazendas têm cemitérios clandestinos para os sem-terra assassinados", afirma.
De acordo com Pizetta, o número de famílias acampadas em áreas invadidas, que no ano passado estava em 50 mil, subiu para 80 mil esse ano. Atualmente, segundo ele, há 499 acampamentos espalhados pelo País. "É preciso que a juventude do MST tenha conhecimento dessa situação e entenda as razões históricas do problema", afirmou.
Os 1,2 mil jovens estão alojados no Ginasio de Esportes da Unicamp . Eles chegaram em trinta ônibus fretados pelo MST e ficam no local até o dia 12. A universidade está oferecendo alimentação e estrutura.


