Brasília, DF - O líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) João Pedro Stedile, 50 anos, afirmou ontem que foi mal interpretado ao utilizar a expressão ''infernizar', em discurso para incitar militantes do movimento a promoverem uma onda de invasões de propriedades em abril.
''Falei em um sentido de entusiasmo: vou infernizar. E fui mal interpretado. De fato foi uma palavra infeliz. O sentido real foi: vamos pressionar, azucrinar. Peço desculpas pela palavra errada'', disse, durante uma reunião da CPI da Terra, instalada no Congresso Nacional.
O líder sem-terra afirmou ainda que ''na verdade quis dizer que era para todos os movimentos que participarão do 1º de Maio (Dia do Trabalho) recuperarem suas bandeiras vermelhas e fazerem uma grande mobilização''.
Disse também que é contra a violência no campo e que ela ocorre em grupos pequenos. ''É a linha do movimento: nós somos contra violência, a nossa força vem do número de famílias que conseguimos organizar. É por isso que as cenas de violência que acontecem contra a nossa vontade ocorrem em grupos pequenos.''
Em outro momento da audiência na comissão, Stedile chegou a afirmar que ''temos consciência de que na situação de violência, só nós é que pagamos o pato'.
''A sociedade sabe que se não fosse o MST o meio rural brasileiro já tinha virado barril de pólvora. Por isso seria uma burrice incentivar a violência.''
A expressão utilizada por Stedile abriu polêmica com ruralistas e com setores do governo. O vice-presidente da República, José Alencar, classificou a frase como ''bravata''.
No último sábado, o movimento deflagrou a ''jornada de luta'', uma série de manifestações e invasões de fazendas no país. A maioria das invasões (14) ocorreu em Pernambuco. Em Recife, integrantes do MLT (Movimento Terra, Trabalho e Liberdade) bloquearam a sede do Incra. Na Bahia, o MST promete invasões no sul do Estado. Em São Paulo, há três áreas invadidas.
O líder sem-terra disse também não acreditar que o governo conseguirá disponibilizar mais R$ 1,7 bilhão em recursos no orçamento para o campo. ''Nós ficamos felizes que o governo anunciou mais R$ 1,7 bilhão, mas temos certeza de que eles não têm capacidade operativa para aplicar'', afirmou Stedile, que também contestou o número divulgado pelo governo de assentados em 2004. Segundo ele, não são 11.093 famílias assentadas, mas 7.000.

mockup