SP tem a 32ª chacina do ano com 3 mortos
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sábado, 03 de julho de 1999
Por Renato Lombardi 
São Paulo, 04 (AE) - Três homens foram executados com mais de dez tiros, ontem (03) à noite, num bar e mercearia na Rua Vicente José Cabral, em Engenheiro Goulart, na zona leste, na capital paulista, na 32ª chacina do ano na Grande São Paulo.
São mais de cem mortos de 1º de janeiro até hoje, neste tipo de crime na região metropolitana. A motivação de mais essa chacina seria vingança. A polícia foi informada de que uma das vítimas estaria envolvida com o tráfico de drogas.
As testemunhas ouvidas - fregueses do bar - revelaram que dois rapazes entraram e passaram a olhar para mais de 15 pessoas que bebiam e ouviam música. Em seguida, encostaram na mesa onde estavam as três vítimas, tiraram revólveres da cintura e dispararam. Uma das balas acertou a barriga da garçonete Maria Pereira da Silva, de 52 anos, que servia cerveja na mesa ao lado. Os assassinos fugiram a pé. Os três homens morreram antes de serem socorridos. Maria foi levada para o Hospital Municipal do Tatuapé e submetida a uma cirurgia para a retirada da bala.
A polícia conseguiu identificar apenas um dos mortos: Manoel Cardoso dos Santos, de 39 anos, caminhoneiro desempregado e morador do bairro.
As outras vítimas, um moreno, aparentando 23 anos, e um branco, com cerca de 24 anos, não tinham documentos. A polícia está pesquisando no Serviço de Identificação as impressões digitais.
O bar e mercearia onde ocorreu a chacina fica próximo da Favela da Caixa Dágua. Ilma da Silva, de 33 anos, a proprietária, informou aos investigadores do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) que as pessoas do bairro, principalmente da favela, se reúnem nos fins de semana para ouvir música, conversar e beber. "É gente de bem", adiantou.
Eram quase 22 horas quando os assassinos entraram. Ilma contou que estava preparando uma bebida atrás do balcão e, ao ouvir o primeiro tiro, abaixou-se e correu para os fundos. Pensou que fosse assalto. Segundo ela, foram vários tiros. A maioria das pessoas deixou o bar assim que os criminosos fugiram.
Os investigadores estiveram na favela durante a madrugada de hoje, tentando localizar os moradores que estavam no bar. Os policiais não conseguiram conversar com as pessoas. Assustados, os moradores não saíram dos barracos. As pessoas que se aproximaram do bar alegaram não ter visto nada.
Um morador explicou aos investigadores que, na favela, quem fala morre. Admitiu que as pessoas sabem muito, mas sabem também que, se forem vistos conversando com policiais, têm pouco tempo de vida. O único que se dispôs a falar foi um homem que estava embriagado e mora perto do bar.
Suas declarações foram aceitas com reservas. Ele explicou que um dos mortos, o moreno, estaria envolvido com traficantes do bairro e escapara da morte no mês passado.
Os policiais deixaram uma intimação com os parentes do homem para que ele se apresente sóbrio, ao DHPP, amanhã (05). Os investigadores estiveram também conversando com os representantes dos favelados. Eles alegaram nada saber dos suspeitos da chacina.
A irmã do caminhoneiro desempregado contou, no fim da tarde de hoje, no posto do Instituto Médico-Legal (IML) da zona leste, onde tentava liberar o corpo, que Santos jamais se envolveu com ladrões ou traficantes de droga.
Ele saíra de casa às 20 horas dizendo que iria para "o bar da Ilma" tomar cerveja e ouvir um pouco de música. Aos sábados e domingos, a dona do bar, a pedido dos fregueses, toca pagode, o que fez aumentar o número de frequentadores, a maioria homens.
Casos como os de ontem continuam preocupando delegados e investigadores do setor do DHPP especializado neste tipo de crime. No ano passado, foram registradas 89 chacinas, com 308 mortos.
O secretário da Segurança Pública, Marco Vinício Petrelluzzi, tem cobrado da Polícia Civil e também da Polícia Militar ação constante nas ruas para desarmar os criminosos que atuam na região da Grande São Paulo.
A maior chacina do ano ocorreu em 27 de junho, no Jardim Varginha. Quatro mulheres e três homens foram mortos. Os acusados estão presos. O chefe do grupo tem 62 anos e, segundo a polícia, vem matando homens e mulheres desde o ano passado na zonas sul e leste. Da quadrilha faz parte um soldado da Polícia Militar. Existe a suspeita da participação de outros PMs no mesmo grupo.


