Brasília, 14 (AE) - Por não ter conseguido até agora provas concretas que classifiquem como ilegal a operação do Banco Central (BC) realizada com a desvalorização do real para socorrer os Bancos Marka e FonteCindam, que incriminem a diretoria da instituição e outros envolvidos nas negociações, o relator da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Sistema Financeiro, João Alberto Sousa (PMDB-MA), afirmou hoje estar constrangido.
O relatório, cuja apresentação adiou por três vezes, à espera de fatos novos, deverá ser novamente modificado. "Não tem uma pessoa mais constrangida com isso do que eu", afirmou hoje à tarde o relator. Sousa afirmou que entregará o relatório na quinta-feira (17). "Eu queria que a coisa fosse bem maior, mas não é", admitiu ele. A última versão do relatório explica o motivo do constrangimento do relator.
Sem provas que configurem a operação de socorro ao Marka e ao FonteCindam como ilegal ou confirmação de denúncias como a de uma conta no exterior com o depósito de US$ 1,67 milhão em favor do ex-presidente do BC Francisco Lopes, o relator limitou-se a detectar contradições nos depoimentos feitos à CPI e apresentá-las. Nas conclusões da última versão do relatório, o relator enquadrou a diretoria do BC e da Bolsa de Mercadoria & Futuros (BM&F) em crime de falsidade ideológica, por "forjar" uma carta para justificar a venda de dólares abaixo do preço de mercado às duas instituições bancárias, fora dos padrões normais de atuação do BC e fora do pregão.
Sousa entendeu também que a diretoria do BC praticou crime de falso testemunho, nos depoimentos feitos à CPI do Sistema Financeiro. Mas o relator está disposto a retirar essas interpretações do relatório e deixar tais conclusões para o Ministério Público Federal (MPF) e para o Tribunal de Contas da União (TCU), que serão os destinatários do relatório preliminar.
Mas o senador está convencido de que a operação foi irregular. "Eu não acredito no risco sistêmico alegado pelo Banco Central para justificar a operação, e acho que ela ocorreu, sim, para proteger os dois bancos", insistiu.
O relator justificou o novo adiamento do relatório com o intuito de receber dados novos e mais consistentes sobre o sigilo bancário e fiscal de ex-diretores do BC, dos banqueiros Salvatore Alberto Cacciola, dono do Marka, e Luiz Antônio Gonçalves, do FonteCindam, além dos colaboradores deles.
A senadora Emília Fernandes (PDT-RS), que cuida do sigilo telefônico, levantou suspeitas com relação ao cruzamento dos telefones de Chico Lopes, do assessor dele à época, Alexandre Pundek, de Cacciola e dos colaboradores dele, Rubem Novaes, Luiz Antônio Bragança e Sérgio Luiz Bragança, os dois últimos amigos do ex-presidente do BC. "Estou amarrada nesses telefonemas", afirmou.
Quanto aos dados bancários, no entanto, não há qualquer prova de irregularidade cometida por algum deles até agora, segundo informou o senador Eduardo Siqueira Campos (PFL-TO), que faz a análise das contas bancárias. "De tudo o que veio para mim até agora, não há fato irregular a relatar", assegurou Campos. A CPI deve fazer uma reunião interna amanhã (15) para decidir sobre a convocação de novos banqueiros, a fim de continuar a investigação sobre o Proer. Quarta-feira (16), às 17h30, a CPI ouve o depoimento do presidente do HSBC no Brasil, que comprou o Bamerindus, Michael Francis Geoghegan.

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