Washington, 17 (AE) - O megainvestidor George Soros disse nesta quarta-feira, em entrevista exclusiva ao jornal "O Estado de S. Paulo", que estava em Davos, na Suíça, na segunda-feira, dia 1º de fevereiro, quando recebeu a primeira informação sobre a ida de Armínio Fraga, um dos administradores de seu fundo de investimentos, para a presidência do Banco Central.
"Até aquele momento, eu não tinha nenhuma idéia de que Armínio estava sendo considerado ou fora nomeado para o Banco Central", disse Soros, um imigrante húngaro de 69 anos que controla o maior fundo hedge de investimentos privados do planeta.
Pouco antes, Armínio apresentara seu pedido de demissão a Soros e o informara sobre sua decisão de aceitar o convite do presidente Fernando Henrique Cardoso para assumir a presidência do BC, anunciada no dia seguinte. A hora em que Soros tomou conhecimento que Armínio estava sendo considerado ou fora nomeado para o BC tornou-se uma questão importante depois que o economista Paul Krugman, do Massachuttes Institute of Technology (MIT), reproduziu rumores num apêndice de um artigo sobre o Brasil, publicado na quinta-feira da semana passada na revista virtual Slate, insinuando que ambos se teriam envolvido numa operação de uso de informação privilegiada - um crime federal nos EUA.
Segundo Krugman, o investidor teria aumentado sua fortuna operando com papéis brasileiros depois de Armínio alertá-lo de que sua nomeação para o BC era iminente. O economista fez uma retratação completa de suas declaração na noite de terça-feira, na página pessoal que mantém na Internet, depois de conversar duas vezes por telefone com Fraga. O presidente indicado para o Banco Central, que passou os feriados do carnaval em sua casa em Nova Jersey, cuidando da mudança para o Brasil, juntou-se hoje ao time de altos funcionários brasileiros que negociam com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Ele retorna amanhã a Brasília para preparar-se para a sabatina do Senado.
Preocupado em deixar claro que não se beneficiou da nomeação de seu ex-empregado para o BC, Soros fez algo inédito. Ele negou não apenas a premissa do rumor espalhado por Krugman, mas praticamente admitiu que não investiu em papéis brasileiros no período mencionado. "Não divulgamos nossas atividades (de investimentos), mas quero dizer que, se Krugman não tivesse retirado sua declaração, eu teria aberto uma exceção e autorizado Armínio a divulgar nossas operações nos dias que precederam sua nomeação para o BC para remover qualquer dúvida"
disse Soros.
O investidor discordou da descrição que jornais internacionais fizeram de Armínio como "homem de Soros", dizendo que o futuro chefe do BC "é ele próprio, uma pessoa independente, como eu". Ele sublinhou que as declarações que fez em Davos sobre a economia brasileira, na qual criticou a política de juros altos, "não refletem necessariamente as opiniões de Armínio, (mas) a minha".
Soros disse que reconhece que há questões éticas que precisam ser seriamente consideradas no uso da porta giratória que existe entre os altos cargos no governo e no setor privado. "Eu e Armínio levamos essas questões a sério", disse. "Mas o perigo maior é quando as pessoas passam do setor público para o setor privado." Para o investidor, nesses casos uma política de quarentena é apropriada. Soros acredita que o efeito de contágio da crise financeira global está esgotado. A dúvida agora é se os investimentos voltarão aos mercados emergentes. Sobre isso, ele manifestou as mesmas preocupações que o vice-presidente do Citibank, William R. Rhodes, levou ao ministro da Fazenda, Pedro Malan, na semana passada: a continuação da política de juros altos. Ele a considera contraproducente, e diz ser importante antecipar ao máximo - de, preferência para o fim deste mês - os próximos desembolsos do FMI, do Banco Mundial (Bird) e do Banco Interamericano de Denvolvimento (BID), para tentar restaurar a confiança perdida. Nesta entrevista ao "Estado", o investidor disse que vê possibilidades de credores e investidores privados voltarem a investir no Brasil.

mockup