Soros diz que foi mal-entendido sobre desvalorização do peso
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domingo, 23 de maio de 1999
Por Ariel Palacios, especial para a AE (assinatura obrigatória) 
Buenos Aires, 24 (AE) - "Eu não proponho a desvalorização, nem estou especulando contra o peso. Uma desvalorização para a Argentina teria consequências profundamente negativas", disse ao jornal portenho "Clarín" o magnata húngaro George Soros. O especulador internacional desmentiu as declarações publicadas pela imprensa mundial na semana passada, onde afirmava que a recessão argentina era causada pela super-valorização do peso, e que o país precisava desvalorizar a moeda. Na semana passada, as declarações causaram a queda na bolsa argentina e a incerteza sobre a moeda do país. Segundo Soros, a imprensa só publicou parte de suas declarações, e afirmou: "não pretendo ser mal-intepretado".
Soros admitiu que o peso está super-valorizado, mas afirmou que isso terá que ser corrigido "fazendo da Argentina um país mais eficiente, diminuindo os custos de produção. Está provavelmente super-valorizado porque o Brasil desvalorizou e é um importante sócio comercial da Argentina". Segundo o magnata, "o remédio para a recessão argentina não é a desvalorização".
O bilionário também enviou um fax ao presidente Carlos Menem, reproduzindo suas declarações de forma integral, e reafirmando que não pretende especular contra o peso. Soros, que foi um frequente partner do presidente Carlos Menem em diversos jogos de tênis nos últimos anos, possui US$ 731 milhões investidos na Argentina, incluindo todos os shoppings centers de Buenos Aires. Desde 1997 é o maior latifundiário do país.
Enquanto Soros se explicava, o governo tentava acalmar os investidores na nova semana que iniciava: Miguel Kiguel, secretário de financiamento do ministério da Economia, que acumula o cargo de chefe de assessores do ministro Roque Fernández, declarou que a Argentina está preparada para enfrentar um ataque especulativo, já que possui US$ 30 milhões em reservas. Além disso, a Argentina possui US$ 7 bilhões em encaixes bancários que estão imobilizados pelo Banco Central e outros US$ 7,8 bilhões de um acordo feito com bancos internacionais, que consiste em um "seguro de liquidez". O país também conta com US$ 2,8 bilhões de um acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Destes, US$ 1,5 bilhão são para disponibilidade imediata, enquanto que o restante, para ser liberado, precisa ser aprovado pela diretoria do órgão internacional.
Além dos anúncios sobre a capacidade defensiva da Argentina para o caso de um ataque especulativo, a dolarização também voltou a ser considerada como uma saída para a atual crise de confiança sobre o peso. O entusiasmo do governo argentino aumentou nos últimos dias pelas declarações do novo secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Lawrence Summers, de que é favorável ao processo de dolarização na Argentina. O ministério estuda medidas para uma dolarização de fato, como o pagamento de impostos em dólares e também tarifas alfandegárias.
Mas, para implementar a dolarização, Menem precisaria a aprovação do Congresso. No entanto, o presidente também poderia arriscar-se a um decreto de necessidade e urgência para dolarizar a economia. Neste caso, o risco tomado seria o de dolarizar o país sem ter o consenso da coalizão de oposição, Aliança UCR-Frepaso, e do próprio partido do governo, o partido peronista, que Menem já não controla mais. Também especulou-se nos últimos dias a possibilidade de realizar uma dolarização unilateral, mesmo sem a aprovação dos EUA.
Segundo o economista Martín Redrado, da Fundação Capital, 60% dos depósitos estão em dólares, e também 80% dos créditos hipotecários.
"Acho que dolarizar não é uma opção do governo, mas uma opção da população, de ter seu dinheiro em dólares", afirma . Redrado considera que se houver uma crise de confiança, o BC deverá responder com os dólares que possui em reservas. Mas, além disso, haveria outros custos: "se fizesse uma dolarização unilateral, a Argentina perderia o rendimento anual de US$ 800 milhões anuais que proporcionam as reservas em dólares. Além disso, o BC não teria mais reservas, o que significaria que não haveria mais um emprestador de última instância".
O polêmico ex-vice-ministro da Economia, Carlos Rodríguez, declarou que "o peso só existe por causa da paridade um a um com o dólar".
Rodríguez considera que deixar o peso flutuar seria "o caos" e afirma que se o governo continuar defendendo a conversibilidade econômica, "a solução é dolarizar". O ex-vice-ministro criticou as declarações do ex-ministro Domingo Cavallo, de que o país poderia deixar sua moeda flutuar depois que fosse criada uma moeda única do Mercosul. Segundo Rodríguez "é só uma manobra política quando ele fala sobre unir o peso à moeda brasileira, que é uma das mais fracas do mundo...".
A possibilidade de dolarização também foi admitida pelo secretário Kiguel, mas só para o caso de uma emergência. Ele sustentou que considera como de baixa probabilidade o sucesso de um ataque especulativo contra o peso. No entanto, se chegasse a ocorrer, o secretário admite que a resposta mais razoável para enfrentá-lo seria a dolarização da economia.


