Soro pode ter causado dez mortes em Campinas
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 27 de março de 1997
Agência Folha 
CAMPINAS - Nove recém-nascidos e um adulto morreram e outras 25 pessoas apresentaram reações em Campinas (99 quilômetros a noroeste de SP) após receberem o produto NPP (nutrição parenteral prolongada), um soro aplicado na corrente sanguínea para substituir a alimentação.
As reações ocorreram em nove hospitais da cidade, e as mortes foram registradas no último fim-de-semana em seis deles, mas só foram divulgadas ontem. O maior número de óbitos foi na Maternidade de Campinas, onde quatro bebês morreram.
O NPP é fabricado pela empresa Tecnopharma, de Campinas, e sua produção foi paralisada na segunda-feira, por determinação da Secretaria Municipal da Saúde.
O reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), José Martins Filho, informou, em nota oficial, que a causa das mortes dos recém-nascidos foi infecção causada pela bactéria Eterobacter Cloacae, presente no soro.
No Centro de Assistência Integral à Saúde da Mulher da Unicamp, morreram dois bebês e outros seis tiveram reações. No Hospital de Clínicas da Unicamp, houve reações em 14 adultos, mas nenhuma morte.
O secretário da Saúde de Campinas, Odair Albano, 44, disse que uma comissão de técnicos foi formada pelas vigilâncias sanitárias da Direção Regional de Saúde e da secretaria municipal para investigar as causas das reações (febre e convulsões). A comissão terá 15 dias para apresentar um relatório. Foram coletadas 31 amostras do NPP na Tecnopharma e enviadas ao Instituto Adolfo Lutz.
Apesar da constatação da Unicamp, Albano disse que ainda não é possível afirmar que as mortes e as reações ocorreram devido à aplicação do soro. O diretor Flávio Picollo Salmin, da Tecnopharma, afirmou que a empresa faz apenas a mistura de ingredientes do NPP. Ele disse que a empresa forneceu todo o material necessário à análise e que a contaminação, se houver, pode ser de um dos ingredientes.
Ele lembrou que as pessoas que utilizam esse medicamento normalmente estão em estado grave e internadas em Unidade de Terapia Intensiva. Para Carlos Alberto Politano, 44, diretor da Maternidade de Campinas, seria uma coincidência muito grande tantas infecções ao mesmo tempo em tantos hospitais.
Em 95, sete recém-nascidos morreram no Caism da Unicamp, vítimas de infecção causada pelo NPP. Na época, o produto era produzido pela própria unidade. Albano disse que a contaminação pode ter ocorrido tanto na produção do medicamento quanto por um dos seus ingredientes. O surto foi considerado pela secretaria estadual um dos mais graves da história do Estado.
Segundo o secretário, cada bolsa do produto possui diferentes ingredientes, produzidos de acordo com a receita emitida pelo médico.


