Taipé (AE-AP) - Em pé, em seu minúsculo quarto num escuro porão fedendo a urina e carne estragada, Chang Kuan-chung tira sua camisa amarela para mostrar as tatuagens que definem sua vida.
"Aniquilar os bandidos comunistas", diz os caracteres chineses no peito do soldado. "Guerrear o caminho de volta ao continente", diz a tatuagem em seu antebraço, as palavras agora desbotadas e embaçadas.
Chang, 74 anos, e milhares de outros ex-soldados que seguiram Chiang Kai-shek a Taiwan meio século atrás, estão desaparecendo, junto com o objetivo de retornar ao continente para derrotar o comunismo.
Uma vez chamados de "o povo glorioso" pela propaganda oficial de Taiwan, suas vidas estão longe de ser gloriosas agora.
Enquanto a maioria dos chineses idosos vivem seus últimos dias cercados pela família, estes homens estão convencidos de que a sociedade e o governo pelos quais eles sacrificaram suas vidas interias para defender, os dispensaram como botas de combate usadas.
"Nós somos objetos quebrados que ninguém quer. Olhe para onde nós vivemos. Ninguém nunca aparece para nos ver", diz Huang Hung-chi, 82 anos, vizinho da Chang e companheiro veterano.
Esses homens estão entre as dezenas de velhos veteranos que vivem nos subterrâneos de um mercado de carne abandonado, onde foram arranjados quartos para eles.
Cada quarto é grande o suficiente apenas para uma cadeira, mesa e uma cama de solteiro
Ele dividem o banheiro e sua comida fica ao relento porque não há geladeiras. Banho significa aquecer a água numa chaleira e esfregar-se em cima de um frio piso de concreto coberto com jornais.
Chang, Huang e um desconhecido número de outros veteranos sem família em Taiwan recebe uma pensão mensal de 12.440 dólares taiwaneses, cerca de US$ 390. Seria um montante magnífico na China, mas é apenas o suficiente para sobreviver na cara Taiwan. Aqueles que são saudáveis suplementam sua renda trabalhando como porteiros de prédios ou coletando ferro-velho.
"Alguns desses velhos companheiros morreram e a única coisa que deixaram foram suas roupas e alguns velhos bilhetes de loteria", diz Sophia Linn, curadora de uma recente exposição sobre as vidas dos chineses que seguiram Chiang até Taiwan.
Chang e os outros poderiam seguir para casas de veteranos administradas pelo governo. Mas o controle que têm sobre suas vidas dá a eles a determinação para continuar e o companheirismo ajuda a acalmar a solidão, dizem eles.
O velho acorda cedo para exercitar-se e conversar, lamentando os crimes e o que eles consideram excessos de liberalismo político na moderna sociedade taiwanesa. Alguns chegam a expressar admiração pelos notórios campos de trabalho do continente, embora "comunista", continue a ser o pior insulto de seu vocabulário.
Os militares definiram de forma preponderante as vidas dos dois milhões chineses que fugiram para Taiwan, a maioria fosse de homens de negócio, acadêmicos ou funcionários públicos, diz Lin, que trabalha para uma fundação que promove o entendimento entre os habitantes do continente e os nativos de Taiwan.
Embora a sociedade tenha se focalizado na cultura taiwanesa desde as quase quatro décadas de lei marcial, encerradas em 1987
mais interesse vem sendo demonstrado ultimamente pela experiência dos refugiados, diz Lin.
"Eu acho que Taiwan está começando a entender os sacrifícios que esses velhos cavalheiros fizeram e as dificuldades que sofrem", diz ela.
Na fuga dos vitoriosos comunista de Mao Tse-tung em 1949, os recrutas do exército Nacionalista de Chiang eram colocados em barcos em Xangai e em outros portos no leste da China e enviados a Taiwan.
Outros, como Chang, chegaram aqui por rotas diferentes. Recrutado para lutar contra os japoneses em 1943, Chang foi capturado pelos comunistas e finalmente enviado para lutar para os chineses na Guerra da Coréia. Capturado pelos sul-coreanos, ele optou por vir a Taiwan depois de três anos num campo de prisioneiros de guerra.
Os soldados nacionalista em Taiwan receberam promessas de dinheiro e terra assim que os comunistas fossem derrotados, mas as regras os desencorajavam a casar-se com medo de que sua motivação em voltar ao continente enfraquecesse. Poucos adquiriram propriedades.
Os anos passaram e a reunificação foi colocada de lado, na medida em que o poder foi transferido dos chineses para os taiwaneses nativos que sentem pouco entusiasmo em unir-se novamente com a China.
No final dos anos 80, os veteranos pressionaram o governo e conquistaram a permissão para fazer visitas a China. Milhares foram, mas enquanto Taiwan prosperava, muitos em seu país natal continuavam pobres.
Porém, Chang, Huang e seus companheiros perguntam-se se teriam sido mais felizes caso não tivessem vindo a Taiwan.
"Quem pode dizer que eu estaria melhor agora se eu nunca tivesse deixado a China", diz Huang. "Eu não poderia ter feito pior".

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