Sonho azul
Quatro milhões de litros de petróleo espalhados simultânea falha mecânica e humana, segundo a Petrobrás e eis o Paraná pagando o alto preço de um abalo ambiental de gigantescas proporções. Na linguagem jurídica, seria o caso de se apreciar o que houve investigando se houve imperícia, negligência ou imprudência. Porque a Petrobrás é reincidente.
O presidente da estatal, Henri Reichstul, amargou o cárcere nos anos de chumbo. Ligado à VPR, a Vanguarda Popular Revolucionária do ex-capitão Carlos Lamarca, pagou no DOI-CODI o preço das suas convicções ideológicas. Sua irma, Pauline, foi uma das seis vítimas de uma emboscada comandada pelo delegado Sérgio Fleury, do DOPS de São Paulo, no município de Abreu e Lima, Pernambuco, em 1973.
São duas situações. Uma, o desastre ambiental-ecológico. Outra, a passagem do político, na cabeça de alguns o suficiente para se absolver, a priori, qualquer erro do presente. Como se os brasileiros tivessem que optar entre a ditadura militar e, tantas vezes, a ditadura da mediocridade. Para os necrófilos políticos, tudo precisa ser visto à luz da ótica marxista e dialética. Raciocínio que pode produzir resultados brilhantes ou lamentáveis.
É preciso saber olhar mais para a população e menos para o umbigo. Fica difícil, para o cidadão, optar entre o deplorável Estado policial e o lamentável Estado da Delinquência. Como se fosse obrigatório escolher aquilo que fosse menos mal ou seja, o autoritarismo, o arbítrio institucional, ou a bandidagem solta, galopante, impune.
Há vários governantes e executivos que tiveram um passado comprometido com o restabelecimento do Estado democrático e que agora se revelam administradores medíocres. Que fazer? Tolerá-los? Substitui-los? Perguntas que geram impasses e estão a exigir respostas.
A Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro decidiu, através do seu setor de Planejamento Estratégico, usar as cores vermelha, amarela e azul para, a partir de agosto, identificar melhor as áreas de incidência criminal. O vermelho servirá para mostrar, nos mapas, os lugares onde a criminalidade aumentou. No amarelo, vão aparecer os bairros onde a criminalidade não diminuiu. A azul representará os lugares onde os números do crime baixaram.
Acredita-se que as cores sensibilizem mais. Os chefes de Polícia de cada área, tendo as cores além dos números estatísticos, deverão direcionar melhor seus efetivos de acordo com esse mapeamento. Espera-se, naturalmente, que não haja daltônicos entre eles. O fato é que esses números são examinados um tanto quanto friamente. É preciso vê-los como eles devem ser vistos ou seja, sem indiferença, sem conformismo, sem burocracia, sem automatismo. Façamos, rapidamente, uma experiência:
Vermelho Como fatores geradores, tivemos esta semana a Fundação Getúlio Vargas alertando, através de pesquisa, que a corrupção retira preciosos recursos para o bem-estar da população. Em outras palavras: aqueles que transformam res publica em cosa nostra, isto é, a coisa pública em bem pessoal, desaparecem com recursos que reverteriam, se fossem aplicados como deveriam, em investimentos que resultariam em melhor qualidade de vida para todos. Se o vermelho pode indicar a criminalidade triunfante, é preciso enfrentá-la unindo esforços, fazendo parcerias, admitindo erros, saber ouvir os outros, contribuindo para o bem-comum.
Amarelo Cor que pode mostrar a estabilidade criminal em determinadas áreas. O crime não pode ter estabilidade. É preciso minar seus alicerces, enfrentá-lo. No Rio, onde a Polícia quer colorir a estatístiva, o traficante Escadinha lançou sua candidatura a deputado federal. O traficante lançou um CD estimulando a justiça com as próprias mãos.
Azul A cor que todos querem: a violência diminuiu. Para consegui-la, entretanto, é preciso enfrentar o vermelho, perceber o amarelo. Que bom se em vez do negro reincidente do petróleo da Petrobrás no Paraná tivéssemos o azul para comemorar. As cores se tornam símbolo. A cada dia, vivemos situações e fazemos constatações que exigem identificá-las. O sonho azul pode parecer utopia. Mas vamos atrás dele, lutando para realizá-lo.





