Curitiba - A sonegação de impostos é a grande causa da escassez de recursos financeiros no governo brasileiro. E a área da saúde é uma das grandes prejudicadas com a falta de orçamento. A constatação é do ex-ministro da Saúde Adib Jatene, que esteve ontem em Curitiba para a abertura do 31º Congresso Brasileiro de Cirurgia Cardíaca, que acontece até amanhã no Estação Embratel Convention Center. ''O problema está na gestão, é o que a maioria diz. Mentira. O problema está na falta de recursos; a gestão é ótima. E o problema se dá porque o governo arrecada sobre o PIB oficial (o que é declarado). Mas, tem que atender uma população que gera um PIB bem maior, devido à sonegação de impostos. Então, o governo sobrevive de empréstimos. Ele emite títulos para pagar juros'', afirma.
Segundo Jatene, a gestão na área de saúde é excelente. Ele analisa: ''O Sistema Único de Saúde (SUS) passa por dificuldades pela falta de recursos, mas é um ótimo sistema, feito para o povo. Outro exemplo de boa gestão são os agentes comunitários, que visitam residência por residência para cadastrar pessoas, examiná-las, instruí-las quanto à prevenção de doenças, verificar e tratar enfermidades.'' De acordo com Jatene, o Brasil é o país que mais vacina, e também foi o primeiro a erradicar a poliomelite. O problema, segundo o ex-ministro, é que a sonegação de impostos torna o sistema de saúde subfinanciado.
Outro ponto citado por Jatene foi o avanço tecnológico, que, ao mesmo tempo que trouxe inúmeras vantagens, como a agilidade no tratamento de doenças, trouxe também alguns retrocessos, como o gasto excessivo com a alta tecnologia e equipamentos de última geração. Isso, segundo ele, onera o sistema de saúde do País. ''Hoje em dia, muitos profissionais dependem completamente de exames e equipamentos de última geração. Isso significa que os profissionais estão cada vez mais despreparados, pois aprendem a trabalhar assim já nas faculdades, que não estão sendo capazes de formar profissionais capacitados para atuar sem a alta tecnologia mas com a boa técnica. Seria necessário uma formação mais adequada, mais precisa. Assim, teríamos profissionais melhores e o País gastaria menos'', conclui.
Ainda, segundo Jatene, o avanço tecnológico também trouxe a ramificação, cada vez maior, no ramo da medicina. ''A oportunidade do surgimento de diversas especialidades também onerou o sistema, e, acabou também desqualificando o profissional, que não procura mais entender um pouco de tudo'', disse.
Para o ex-ministro, a solução, não só para o problema orçamentário na área da saúde, mas para o problema financeiro do País, está também nas mãos da população. Para ele, o jeitinho brasileiro está presente em todos os ramos da sociedade. ''As pessoas não costumam pedir nota fiscal. E as empresas também não costumam oferecer. Ou entramos em um processo de corrigir a situação, combatendo a sonegação (que depende muito da população), ou não teremos mais solução.''
Adib Jatene ocupou o cargo de ministro da Saúde nos governos Collor e Fernando Henrique Cardoso e foi quem criou a CPMF, o imposto da saúde. Jatene proferiu conferência ontem, às 20 horas, no Museu Oscar Niemeyer (MON), sobre políticas públicas de saúde.

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