Sombras cada vez mais raras
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terça-feira, 13 de dezembro de 2016
Celso Felizardo<br>Reportagem Local 

O termômetro registra 34ºC na zona norte de Londrina. Com um lenço na cabeça para se proteger do sol forte das 15 horas, a aposentada Zilda Maria, de 68 anos, caminha lentamente pelas ruas do Jardim Tropical. Ela nota que, com o avanço da idade, não foi só o vigor que diminuiu. As sombras proporcionadas pelas árvores, antes generosas, estão cada vez mais escassas. Após uma longa parada para recobrar o fôlego, ela cria coragem para continuar o trajeto. "Esse povo só sabe cortar as coitadas das árvores. Quem aguenta com esse calor?", reclama.
A impressão de dona Zilda é comprovada por especialistas. De acordo com o professor de Agronomia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Ricardo Faria, a sensação térmica chega a variar de 2ºC a 3ºC entre áreas verdes e regiões com arborização precária. "As árvores transpiram, trazendo a umidade do solo para as ruas. Por isso falamos que as árvores são verdadeiras bombas d'águas", compara. "Com o aumento da temperatura em caráter global, as pessoas têm que se conscientizar da importância das árvores", alerta.
A situação deficitária da arborização em Londrina é reconhecida pela própria Secretaria Municipal do Ambiente (Sema). O diretor operacional do setor de Áreas Verdes, Marcus Vinícius Tersariol, admite vários "vazios" espalhados por todas as regiões da cidade. "Temos muitos espaços vazios que precisam de um trabalho mais robusto de arborização. No entanto, para isso é preciso mais conscientização da população, no cuidado com as mudas plantadas, e, além disso, uma maior estrutura para o trabalho das nossas equipes", diz.
Segundo Tersariol, o plantio ficou abaixo do previsto. Ele revela que a meta da secretaria era plantar 35 mil mudas de árvores pela cidade durante a atual gestão, mas apenas 28 mil foram plantadas. A secretária municipal do Ambiente, Liane Aparecida Lima, justifica que as chuvas prejudicaram os trabalhos de arborização neste ano. "Nossa prioridade esteve voltada a consertar os estragos causados pelas fortes chuvas. Com isso, a arborização ficou um pouco prejudicada", admite. No entanto, ela lista os avanços obtidos na atual gestão. "Em 2013, aprovamos o Plano Municipal de Arborização, que determina, entre outras coisas, qual espécie e onde elas devem ser plantadas. Foi um avanço significativo", considera.
O plano prevê que toda casa tenha uma árvore para a liberação do "habite-se". O problema é que o efetivo para realizar a fiscalização também é pequeno. "Enfrentamos um grave problema, pois não há colaboração da comunidade. Se não houvesse o vandalismo, o impacto do trabalho realizado seria muito maior", avalia. "Comparando Londrina com outras cidades de porte parecido, é possível ver que temos uma boa arborização", comenta Liane.
De acordo com os estudos da Sema, as piores situações são encontradas nas zonas norte e oeste do município. A reportagem esteve no final de novembro na Avenida Mário Roberto Gneco, no Jardim Tropical (zona norte). Em toda a extensão de 550 metros existem apenas quatro árvores de pequeno porte. "Eu já fico debaixo do sol todo o dia no serviço, pelo menos pra caminhar poderia ter uma sombra", cobra o pedreiro Nilson Teixeira, de 30 anos.
A cena se repete por vários bairros da zona norte. Adelaide Amorim Chaves, de 62 anos, mora no Jardim Itaparica e também sente falta de mais árvores. "Antes as pessoas valorizavam mais a natureza, cuidavam das árvores, dos rios. Hoje está bem complicado", diz, protegida por uma sombrinha.
Tersariol considera que a região central, apesar de alguns fatores complexos, apresenta um condição razoável. "Nós fizemos uma ação pesada no centro e surtiu efeito. O problema é há uma disputa natural com construções, além da rejeição de comerciantes, que acham que os galhos vão esconder as fachadas das lojas", relata. Para o diretor, em um contexto geral, a cidade apresenta um resultado satisfatório. "Nós ainda temos uma posição confortável por causa dos fundos de vale. Ainda que alguns estejam maltratados, com o depósito irregular de lixo e entulho, esses espaços preenchem a cidade de verde", declara.

SATISFAÇÃO
Paulo Fernando, de 49 anos, trabalha com venda de caldo de cana há sete anos no mesmo ponto, sob a sombra de uma das frondosas sibipirunas da Avenida Pandiá Calógeras, no Jardim Shangri-lá A (zona oeste). Em alguns pontos, os galhos formam verdadeiros túneis verdes. "Trabalhar aqui é melhor que no ar-condicionado. Metade das minhas vendas eu devo à sombra das árvores", reconhece. A auxiliar de serviços gerais Maria Lúcia Astorga Emma trabalha em uma empresa na região e adora passar pela avenida. "Se toda a cidade fosse assim seria muito bom. Não sofreríamos tanto com o calor", avalia.
Faria aponta que, apesar de serem bonitas, as sibipirunas já não são as espécies mais indicadas para o plantio nas calçadas. "Hoje temos boas opções de árvores que podem produzir sombra, mas que não afetam tanto as calçadas. Boas opções são os oitis ou as quaresmeiras", sugere.
Serviço:
Interessados em obter mudas e orientações podem entrar em contato com a Sema pelos telefones (43) 3372-4762 e 33724763


