Lisboa, 10 (AE) - Para sobreviver ao genocídio em Dili, o observador português Antônio da Conceição Tavares teve de fugir sob tiros dos indonésios. "Houve um momento em que, quando apareceram os militares australianos para nos retirar, da casa onde eu me encontrava até a estrada eram cerca de 600 metros. No caminho havia tropas indonésias. A dona da casa dizia que se eu fosse até a estrada ia morrer. Disse para irmos para as montanhas, porque com a resistência íamos conseguir sobreviver."
Naquela hora, Antônio decidiu tentar correr até o caminhão. "Em frações de segundo tive que decidir e optei por ir até a estrada. Havia milícias e tropas que estavam queimando uma casa ao lado e eu decidi correr até o transporte australiano. As milícias viram e começaram a atirar."
Aos 36 anos, Antônio, um professor de origem angolana que trabalha para o governo português e dirige a Associação de Defesa dos Angolanos em Portugal, foi convidado para ser observador do plebiscito pelo Partido Socialista Timorense - uma organização que denunciou o acordo entre Portugal e a Indonésia para deixar a segurança da população nas mãos dos indonésios.
Em Dili, Antônio ficou no bairro de Era, a cinco quilômetros da sede da Organização das Nações Unidas (ONU) na capital timorense. No local em que estava, as milícias organizadas pelos indonésios começaram a atacar no dia 3 de setembro. "Os tiroteios começaram na sexta-feira à tarde e eu já não podia mais sair de casa. Entre sexta-feira e domingo, dormia em média em três casas por noite."
Único observador no bairro, ele se tornou um alvo dos indonésios. "Tive que fugir, saltar muros, dormir debaixo de camas. Isso porque as casas em que eu ia eram queimadas." Antônio afirma que por várias vezes conseguiu escapar dos milicianos pró-indonésios.
"Num dos dias tive a felicidade de ter sido levado a um hospital numa ambulância e a casa em que estive antes foi queimada. Uma das casas em que eu estava foi baleada. Foi no sábado à tarde e houve três ou quatro tiros na porta da casa. Se entrassem naquela hora, eu estaria sozinho na casa. Mas aí foi montada uma encenação para despistar as milícias."
Foi com a solidariedade da população que ele conseguiu iludir os indonésios. "As pessoas diziam: Onde come um, comem dois ou três. Onde dorme um, dorme dois ou três. Eu estava debaixo de uma cama e eles diziam: pode sair agora. Aí eu ia para outra casa. Era tão escuro que não via nada à distância de um metro. Na outra casa, abriam a porta e diziam para eu me esconder debaixo da cama, porque as milícias estavam a 10 ou 20 metros. Mesmo para ir ao banheiro, tinha que ser acompanhado, porque muitas vezes as milícias estavam ao lado e eu nem podia me mexer."
Muitas das pessoas responsáveis por fazer com que Antônio escapasse foram eliminadas. "Não presenciei as mortes das pessoas que me ajudaram, mas vi os corpos. Vi corpos e corpos no chão. Sobretudo jovens. É inacreditável, é inaceitável. As pessoas com quem eu tinha falado estavam mortas. Não foi um, dois ou três. Foram dezenas. Muitas eram jovens que tinham falado comigo no dia anterior."
Com revolta, guarda a memória dos massacres. "As ruas cheiravam todas a queimado, havia pessoas a morrer e eu tinha que saltar os muros e fugir. Havia uma solidariedade muito grande das pessoas. Todo esse povo tão generoso está sendo martirizado."
Com base no testemunho dos timorenses, Antônio afirma que as milícias não eram compostas por cidadãos da ex-colônia portuguesa, mas por indonésios: "Diziam que os timorenses não têm aquelas características, nem físicas nem morais."
Ele também acusa os serviços secretos indonésios de estarem por trás da matança. "No domingo, eu tentei pessoalmente contactar a Cruz Vermelha, a Unamet e a Igreja Católica, mas os celulares não tinham comunicação. Isto é uma prova de que não se trata de milícias, mas da Intel (polícia política indonésia), porque as milícias não tinham a capacidade de bloquear todo o sistema de telefones celulares de Dili."

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