Soldados de paz prendem soldados sérvios dentro de Kosovo
Pristina, 02 (AE-AP) - Soldados de paz da Otan disseram hoje (02) que prenderam cinco soldados iugoslavos que alegaram ter se perdido e cruzado a fronteira com Kosovo e seis integrantes da polícia especial armados que faziam uma transmissão clandestina de um cidade ao sul de Pristina.
A presença de forças de segurança sérvias em Kosovo viola um estrito acordo de retirada de tropas que exigia que todas as tropas e policiais sérvios saíssem da província até 20 de junho. Oficiais americanos haviam reclamado na quinta-feira que algumas unidades paramilitares sérvias permaneciam na província, criando uma ameaça para as tropas da Otan.
Hoje, nas Nações Unidas, o secretário-geral Kofi Annan indicou Bernard Kouchner, o ministro da Saúde da França e um fundador do grupo humanitário Médicos Sem Fronteiras, para encabeçar a administração civil em Kosovo. Como enviado especial, Kouchner será responsável pelo retorno dos refugiados e a reconstrução da infra-estrutura civil. Ele assumirá o cargo que estava sendo interinamente ocupado pelo brasileiro Sérgio Vieira de Mello.
Enquanto isto, 5.000 pessoas participaram na noite de hoje de um protesto contra o governo na segunda maior cidade da Sérvia e a principal autoridade humanitária da ONU em Kosovo reuniu-se com líderes sérvios e albaneses da província a fim de encontrar formas de pôr fim ao clima de medo criado pelos ciclos de assassinatos étnicos e represálias na região.
Dezenas de milhares de albaneses kosovares congestionaram na noite de hoje as ruas de Pristina para celebrar o nono aniversário da declaração de independência de Kosovo feita por movimentos de oposição, uma declaração não reconhecida por nenhum governo.
Soldados de paz americanos disseram hoje ter prendido cinco soldados iugoslavos, todos em uniforme e carregando fuzis de assalto, que alegaram que haviam perdido o rumo na zona de contenção de cinco quilômetros e cruzado para Kosovo por engano. A Otan anunciou que havia pedido uma explicação ao governo iugoslavo.
Soldados de paz holandeses capturaram seis supostos integrantes da polícia especial sérvia na cidade de Urosevac, 30 km ao sul de Pristina, que estavam equipados com armas, computadores e equipamento de rádio.
O general americano Wesley Clark, comandante-supremo da Otan, disse numa entrevista esta semana que estava claro que forças de segurança sérvias, "algumas com vínculos com organizações de inteligência", permaneciam na província em várias regiões. Ele afirmou que as forças pederiam estar querendo "plantar as sementes de um futuro conflito, para contestar o controle da província".
Depois de uma reunião de sete horas entre líderes das comunidades sérvia e albanesa da região, convocada pelo representante provisório da ONU em Kosovo, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, os dois lados divulgaram um comunicado apelando por calma.
"Pedimos a todos os habitantes de Kosovo, quer tenham status civil ou militar, que se contenham e desencorajem ativamente os outros de cometer quaisquer atos de violência contra seus vizinhos", assinala o comunicado. "Tais ações são inaceitáveis e os responsáveis serão levados à Justiça."
Os representantes sérvios na reunião com o governo regional provisório - estabelecido pela guerrilha albanesa de Hashim Thaci - foram o arcebispo ortodoxo Artemije e pelo líder do Movimento Democrático Sérvio, Momcilo Trajkovic, oposto ao presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic. Todos denunciaram "os crimes do regime de Milosevic" e ressaltaram que "a paz só pode ser construída com justiça, não com vingança."
A convocação da reunião foi um dos últimos atos de Vieira de Mello no cargo.
O novo representante-chefe de Annan em Kosovo, Kouchner, foi uma das primeiras pessoas a articular o conceito do "direito de intervenção humanitária" superando a soberania de Estado.
A Otan usou esse argumento para justificar suas 11 semanas de ataques aéreos contra a Iugoslávia, que levaram Belgrado a pôr fim à "limpeza étnica" de albaneses em Kosovo e a retirar suas tropas da província.





