Dimitri do Valle
Madrugada fria, 9 de julho do ano passado. O soldado Antônio Cláudio Cardoso de Meira, 36 anos, prepara-se para testemunhar a primeira desocupação de fazenda em 14 anos como policial militar. Ele está na Fazenda Santa Gertrudes, no município de Mariluz (PR). A área de 2,6 mil hectares é ocupada por cerca de 350 famílias do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra.
O relógio de Meira marca 1 da madrugada. O soldado vê crianças e mães apavoradas com a confusão: gritos, intimidações, soldados armados, e cães. Os homens são obrigados a deitar de bruços no chão. Alguns, algemados. Um menino de 10 anos, que se perdeu dos pais, agarra-se ao corpo do soldado. ‘‘Tio o que eles vão fazer com a gente?’’, pergunta o garoto, assustado. Meira tenta tranquilizar o pequeno sem-terra, depois vai para um canto chorar. ‘‘Nunca tive simpatia pelos sem-terra, mas não podia concordar com aquilo’’, disse o soldado, na semana passada, em entrevista exclusiva à Folha.
Meira - que trabalhou até o dia 18 deste mês no setor de comunicação social da PM, no Quartel do Comando Geral, em Curitiba - começava a encarar de uma maneira diferente o conflito agrário no Estado. Cerca de dez meses depois da desocupação da Fazenda Santa Gertrudes, ele teria se deparado novamente com o assunto. Desta vez, na sala de vídeo da PM, ao acompanhar a edição de imagens das desocupações promovidas na região noroeste do Estado entre os meses de abril e maio deste ano. A ação policial na madrugada, os tiros e as bombas de efeito moral, teriam feito o soldado se lembrar do menino assustado de quase um ano atrás, em Mariluz. ‘‘As fitas eram editadas, copiava-se somente as partes que interessavam para se demonstrar que houve uma situação pacífica, que não foi feito nada de irregular’’, revela.
São estas mesmas fitas que a Secretaria de Segurança Pública teria entregue ao Secretário Nacional de Direitos Humanos, José Gregori, para dizer que o governo paranaense respeitava os direitos individuais do cidadão no campo. Foi o soldado quem entregou as fitas completas das desocupações e do treinamento da PM realizado em 97 e 98 e que foram divulgadas pela Folha e pela Rede Globo. O governo diz que as imagens do treinamento foram colhidas entre 1994 e 95 e montadas pelo MST. Meira também contesta esta informação, pois era ele quem empunhava a câmera de vídeo que registrou o treinamento.
Esta entrevista foi feita há uma semana. Para chegar ao local onde o soldado estava escondido, o repórter teve a cabeça coberta por um capuz enquanto rodava - durante mais de duas horas - numa perua com cortinas nas janelas. O soldado revelou os bastidores das operações da polícia nas áreas ocupadas pelo MST, falou de sua preocupação com a segurança da família, do caso de envolvimento da PM com o estelionatário Joni Rodrigues e disse que não se considera um traidor. Acompanhe os principais trechos da entrevista:

Folha - O que o levou a tornar públicas as imagens que mostram a PM agindo de madrugada durante desocupações de fazendas na região noroeste do Estado no mês de maio?
Meira - A primeira coisa que me levou a denunciar isso foi o seguinte: participei da reintegração de posse da Fazenda Santa Gertrudes, na região de Campo Mourão, no município de Mariluz. Foi bem na semana da decisão da Copa do Mundo. E este fato realmente marcou porque eu nunca havia participado de uma reintegração de posse da forma que aquela foi executada, com bombas e tiros para o alto.
Folha - Naquela reintegração de posse havia a presença de oficial de Justiça?
Meira - Em nenhum momento tomei conhecimento da presença de oficiais de Justiça. Vi crianças chorando, passando frio, assustadas. Uma situação que me comoveu foi de um menino que veio correndo, ele saiu numa situação de desespero, e eu pude constatar que ele tinha defecado na calças. Ele chegou pra mim e falou assim: ‘‘O que eles vão fazer com a gente tio? Cuida de nós, tio, não deixa eles fazer nada pra nós’’. Daí eu peguei e acalmei aquele menino e falei pra ele: olha, graças a Deus não aconteceu nada com você até agora e não vai acontecer mais. Eu garanto pra você. Ainda falei assim, em nome de Jesus eu te garanto que não vai acontecer nada.
Folha - Você participou das edições destas fitas que mostram as operações de maio?
Meira - Participei porque o meu serviço é de edição, de filmagens de fitas de vídeo.
Folha - O MST pode ter manipulado as imagens, como o governo do Estado está alegando?
Meira - Aquelas imagens que foram para a Rede Globo são trechos. Só que a fita que eu passei para o Ministério Público é uma sequência. E estas fitas de reintegração de posse também tem uma sequência. É uma sequência de invasão da fazenda, de mobilização de pessoal através de intimidação com armas, com bombas e tiros. E em seguida, tem os outros estão deitados, algemados no chão, para identificação dos líderes.
Folha - Por que o interesse de se identificar os líderes?
Meira - É para neutralizar o movimento, no caso. Porque em tudo você vai no líder. Se existe uma rebelião, você vai no líder. É um esquema que qualquer um sabe que é usado. Você neutralizou o líder, você deixa eles sem força.
Folha - O governo do Estado alega que parte das imagens do treinamento de policiais é de cinco anos atrás e que esta prática já foi abolida. Você poderia esclarecer o que realmente aconteceu em relação àquelas imagens?
Meira - Fiquei estarrecido quando usaram aquele argumento de que a fita era antiga porque tinha um oficial que já havia falecido. Nunca vi nada que desabonasse a conduta desse oficial, que já é falecido, que é o capitão Almeida. São duas fitas diferentes. Aquela fita que aparece o capitão Almeida é de um certo tempo. O ano era 97, pouco antes de estourar aquele negócio da favela Naval (SP), e foi filmada por mim particularmente.
Folha - Você poderia especificar qual o período da outra filmagem, a mais recente?
Meira - A segunda parte é de uma outra fita distinta que foi filmada em setembro de 98.
Folha - Quando as imagens vieram a público, você recebeu informações de que seus familiares foram procurados por policiais...
Meira - O pessoal do serviço reservado, que eu sei quem é e me reservo no direito de falar só em juízo, que logo após o Jornal Nacional esteve na minha casa. Eu estava na minha sogra. Eles ficaram de campana a noite inteira, e quando o meu pai saiu para ir na minha sogra avisar que o pessoal estava à minha caça, eles foram atrás, bateram lá e ultimaram.
Folha - Por que você não se apresentou ao seus superiores?
Meira - Como vou me apresentar sabendo que eu fui acusado de ter mandado aquelas fitas do Joni Rodrigues (estelionatário foragido da Justiça de Marília (SP) e que tinha um bom relacionamento com o comando da PM para negociar carros com a tropa, conforme denunciou a Folha em maio) para a imprensa? Como eu ia me apresentar para alguém que trabalha no setor e era acusado de ter envolvimento com o Joni Rodrigues? A questão das ameaças eu também preciso esclarecer. Recentemnete foi colocado na imprensa a situação do Joni que tinha um suposto relacionamento com o comando da PM. Começaram a sair estas reportagens, com muitos policiais lesados, são quase 200, inclusive conheço muitos deles. Esta situação tentaram direcionar para a minha pessoa através do comando do regimento de polícia montada, do coronel Ribas. Falaram que fui eu quem entregou a fita. No momento me senti arrebentado. Depois ficou comprovado que eu não tive participação nesta filmagem e quem fez a filmagem foi outro soldado que trabalhava na seção. E naquele dia da filmagem eu estava na Operação Verão, no litoral, fazendo serviços de reportagens.
Folha - Com que finalidade as fitas das desocupações eram editadas?
Meira - Veja bem, elas eram levadas e passadas na íntegra e daquelas fitas era montada uma fita para ser apresentada pelo secretário de Segurança em alguma situação. Era para uso da Secretaria de Segurança Pública. Estas fitas eram gravadas, editadas, tiradas somente aquelas partes que realmente interessavam e em nenhum momento foram tiradas partes destas situações aí da madrugada, que ocorreram agora pela segunda vez e da qual eu não tenho, não tive participação das filmagens.
Folha - Quando você fala ‘‘as partes que interessam’’ o que isso quer dizer, que partes são estas?
Meira - Ali, a princípio, as partes que interessam, são as partes pacíficas, no caso, durante o dia. Em nenhum momento foi tirado estas imagens à noite. O que eu pude ver foi que eram tiradas somente imagens que interessavam para se demonstrar que houve uma situação pacífica e não foi feito nada de irregular.
Folha - Como você imagina a sua vida daqui pra frente?
Meira - Jamais esperava que fosse tanta pressão, mas até agora estou suportando, graças a Deus. Quem não vai ficar perturbado sendo ameaçado, você que sempre procurou prestar um bom serviço e isso eu posso provar em fotos de jornais e reportagens que inclusive foram ao ar e eu tenho as fitas guardadas. Inclusive com crédito das minhas imagens dentro da TV Bandeirantes, do programa do próprio deputado Alborghetti. Ele tem imagens que ele mesmo deu crédito, me elogiou e infelizmente hoje é uma pessoa que disse que se a Polícia Militar tem eu dentro, não precisa de inimigos. Mas aí a gente começa a ver como não pode confiar em ninguém.
Folha - A Secretaria de Segurança Pública nega veementemente qualquer ato irregular nas operações de desocupação. Qual é a sua opinião sobre isso?
Meira - Quem tá negando esta situação, é porque há interesse de se negar isso. Isso aí eu já sabia. Só não sabia que iria chegar ao ponto de eu não estar falando a verdade. Agora não cabe a mim julgar quem está mentindo, porque isso vai ser provado na Justiça, porque a mentira, como diz, é uma coisa que não perdura.
Folha - Que recado você mandaria à tropa da Polícia Militar do Paraná? Você se considera um desertor ou traidor?
Meira - Um traidor jamais eu iria me considerar. E sei que 90% dos companheiros da Polícia Militar sabem que eu não sou um traidor. Porque eles sabem que desde o início quem foi usado como massa de manobra fomos nós, desde a época da campanha política. É um fato que é notório e várias fontes até já divulgaram alguma coisa a respeito da situação da PM em relação à campanha de um determinado deputado (Meira refere-se ao deputado federal Abelardo Lupion, do PFL). Eu fui designado para fazer filmagens nestas situações de lançamento de campanha, projeção de vídeo deste determinado deputado. A tropa sabe do que eu estou falando porque todos foram enganados. Foi mostrada uma tabela de diferença salarial, que é um direito de todos nós policiais militares. Essa diferença salarial, alguns policiais, a minoria, conseguiu na Justiça. Hoje existe um descontentamento dentro da Polícia Militar pelo fato de alguns sargentos ganharem menos que outros mais antigos e até mesmo alguns soldados ganharem mais que um terceiro sargento, porque recebeu esta diferença na Justiça. E na campanha política foi usado esse argumento de que o dinheiro já estava no orçamento do Estado e de que em janeiro, mais tardar fevereiro, seria paga essa diferença. Mas no entanto nós não recebemos. Isso eu posso provar, através dos meus contra-cheques, que nem mesmo o terço de férias que eu havia pedido. Tanto que eu nem pude tirar férias porque eu contava com o meu terço de férias em janeiro e até hoje eu não recebi e não sei se vou receber. E também pelo fato de muitos estarem entrando na Justiça por terem seus vencimentos reduzidos através deste sistema de Paranaprevidência. Não estou pregando uma rebelião na Polícia Militar, jamais. Isso é contra o regulamento e ninguém vai fazer porque não vai levar a nada. Apenas o que temos que fazer é reivindicar aquilo que é o nosso direito. No meu caso, quero é que parem, cessem essas ameaças que a minha família recebeu. A minha mãe ficou realmente apavorada quando alguém do serviço reservado, que eu sei quem é mas me reservo ao direito de falar só em juízo e na comissão, foi até a casa dela. Essa pessoa me ameaçou e disse que era melhor eu aparecer em casa ou senão eu apareceria no inferno.
Folha - Você voltaria a viver no Paraná?
Meira -Vou voltar de cabeça erguida porque eu acho que é impossível num Estado onde se prega tanta coisa boa, não haja uma Justiça para essa situação, alguém que abra os olhos e veja que a farsa não é da minha pessoa. Fiz isso para cessar uma situação que com certeza iria perdurar não sei por quanto tempo. Se o MST é o Sendero Luminoso, como determinado deputado falou, a tropa da Polícia Militar estava incorrendo num risco muito grande. Qualquer soldado vai ver que não é certo fazer as coisas de madrugada, porque se realmente o pessoal estivesse armado, da forma de guerrilha, certamente todos nós, nem eu, neste momento poderia estar aqui falando com todo mundo. Tudo o que estou falando eu vou provar para o Ministério Público Federal, Estadual e à Comissão de Direitos Humanos (veja texto nesta página).

mockup