Dimitri do Valle
Uma testemunha-chave será ouvida hoje em Brasília sobre os conflitos de terra no Paraná. Responsável pela chegada à imprensa de fitas de vídeo que mostraram ações irregulares da PM paranaense em ações de despejo, o soldado Antônio Cláudio Cardoso de Meira vai depor à tarde na Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Meira, que é lotado no Quartel do Comando Geral no setor de comunicação social, em Curitiba, pode dizer se a Polícia Militar do Estado cometeu ou não abusos contra integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) nas operações de desocupação de fazendas na região Noroeste.
Meira está sob custódia do Programa de Proteção de Testemunhas, do Ministério da Justiça. Por intermédio do soldado, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) obteve fitas de vídeo que exibem irregularidades cometidas durante as ações de depejo promovidas pela PM no mês passado. As fitas foram entregues à Rede Globo e à Folha de Londrina/Folha do Paraná, que denunciaram as arbitrariedades.
Por ter sofrido ameaças, Meira buscou proteção federal. Por volta das 6 horas de ontem, agentes da P-2 (o serviço reservado da PM) estiveram à procura do soldado em sua residência, no bairro Boqueirão. Eles chegaram a entrar no terreno onde estão localizadas as casas do policial e de seu pai. Um dos agentes teria dito a um parente de Meira que a PM iria ‘‘caçá-lo’’ por todo o Paraná.
O presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, deputado Nilmário Miranda (PT-MG), emitiu nota oficial em que pede ao governador Jaime Lerner que impeça qualquer represália ao soldado e sua família. O setor de comunicação social da PM negou que o soldado esteja sofrendo perseguições.
O chefe da comunicação, major José Paulo Betes, disse que Meira está desaparecido desde segunda-feira. O major falou que mandou dois soldados de sua seção até a casa de Meira para saber do seu paradeiro. ‘‘Ele é meu funcionário. Mandei verificar se estava doente’’, explicou.
Como ninguém foi encontrado, Betes disse que foi pedido apoio aos agentes da P-2. Sobre as denúncias de ameaças, Betes alegou que enquanto Meira não aparecer, não pode tirar conclusões antecipadas. ‘‘Não sei o que aconteceu ainda’’, afirmou.
As denúncias de Meira à CPT provocaram elogios de lideranças do MST no Estado. ‘‘O depoimento dessa personalidade na Comissão dos Direitos Humanos demonstra que as pessoas querem a reforma agrária e discordam dos métodos violentos da polícia contra os agricultores’’, comentou o coordenador estadual do movimento, Roberto Baggio.
O advogado da CPT, Darci Frigo, disse que a proteção de Meira por parte do Ministério da Justiça demonstrou que ‘‘a sociedade paranaense não tem nenhuma garantia de poder contar com o apoio e a proteção do poder público’’. ‘‘Em vez de os crimes serem investigados, o governo busca destruir provas e amedrontar testemunhas.’’

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