São Paulo, 07 (AE) - O soldado Humberto da Conceição, um dos sete policiais militares acusados do assassinato dos três jovens em Praia Grande, declarou, em seu depoimento na Corregedoria da PM, que na madrugada da Quarta-Feira de Cinzas, quando os rapazes desapareceram, ele e seus colegas de ronda encontraram em Cidade Ocean três adolescentes com ferimentos na nuca.
Ele não soube dizer se eram Paulo Roberto da Silva, de 21 anos, Anderson Pereira dos Santos, de 14, e Thiago Passos Ferreira, de 17.
"Os rapazes disseram que não precisavam de ajuda e foram embora", afirmou. O oficial da Corregedoria encarregado do interrogatório não perguntou sobre detalhes do contato dos PMs com os rapazes. Também não perguntou por que os militares deixaram de socorrer pessoas com ferimentos na cabeça e nuca.
O soldado Conceição disse ainda que o turno da ronda dele e dos demais acusados havia terminado às 4h30. Estavam em Praia Grande e um sargento do destacamento do município, de quem o policial alegou não saber o nome, pediu para que continuassem com o policiamento. Eles concordaram.
O oficial que interrogou Conceição não perguntou onde estava naquele momento o tenente Alessandro Rodrigues de Oliveira, encarregado da patrulha e o único que poderia concordar com o prosseguimento da ronda, conforme o regulamento.
O depoimento do tenente Oliveira durante o indiciamento, ontem (06), pela Corregedoria, por homicídio e ocultação de cadáver, foi contraditório, assim como o de Conceição.
Ele negou ter participado da prisão e do assassinato dos rapazes. Mas uma testemunha, localizada pela PM, disse ter visto o carro do oficial, um Daewoo, próximo do local onde os corpos foram encontrados.
O tenente disse ter deixado seu carro no quartel com a chave na ignição e outra pessoa pode ter utilizado o veículo. Alguns dos sete militares acusados das mortes disseram que na terça-feira de carnaval, por volta das 21 horas, durante o policiamento, os sete acusados foram para a casa da avó de Oliveira, em Praia Grande. Eles deixaram o carro da Polícia Militar na garagem da residência e o oficial foi tomar um banho. Todos jantaram e, pouco depois das 23 horas,voltaram para o patrulhamento.
Segundo os promotores Alexandre Marques e Walfredo Cunha Campos, designados para acompanhar os depoimentos na Corregedoria da PM, o tenente não foi convincente durante o interrogatório e caiu em diversas contradições. Nenhum dos acusados disse a mesma coisa. Os horários declarados também são diferentes.
Assim que o Inquérito Policial Militar (IPM), for concluído o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) vai refazer todo o trabalho de investigação.
Na sexta-feira (05), a Corregedoria da Polícia Militar encaminhou cópia do IPM ao DHPP, mas deixou de mandar mais de 40 páginas do documento.
O tenente Oliveira, o sargento José Carlos Ferreira e os soldados Marcelo de Oliveira Chirstov, Edvaldo Ribeiro de Assis, Humberto da Conceição, Alexandre Serafim de Lara Costa e Antônio Sérgio Quintas da Costa, indiciados por homicídio e ocultação de cadáver serão interrogados no inquérito instaurado no 1º Distrito em São Vicente e encaminhado na semana passada para o DHPP.
A delegada Elisabete Sato, destacada para presidir as apurações, além de interrogar os militares, poderá determinar novas perícias. Na quinta-feira (04), dia do encontro dos corpos
os fotógrafos do DHPP registraram o trabalho de localização e remoção. As fotos farão parte do inquérito da Polícia Civil.
Esta semana a perícia deverá encaminhar às Polícias Civil e Militar os laudos dos exames realizados nas sete fardas dos militares para apurar se há vestígios de sangue. Testemunhas ouvidas pela Corregedoria disseram ter visto alguns dos acusados tomando banho na manhã da quarta-feira (03) num posto de gasolina em Praia Grande.
Uma das pessoas chegou a dizer ter visto soldados lavando as fardas. O laudo da Blazer ocupada pelos acusados apontou a existência de sangue e exame de DNA está sendo realizado para apurar se é de algum dos rapazes assassinados.
O teste de balística poderá indicar se os tiros que mataram os três jovens foram ou não disparados pelas 18 armas - revólveres, pistolas e uma carabina - entregues na semana passada pela PM ao Instituto de Criminalística. A suspeita dos que investigam as mortes é que as armas encaminhadas não sejam as mesmas usadas no assassinato.
Sábado e domingo militares da Companhia de Operações Especiais (COE), especialistas em sobrevivência na selva, fizeram uma busca na área onde os corpos foram encontrados, usando um detector de metais fornecido pelo Exército.
O objetivo é tentar encontrar as verdadeiras armas usadas para matar os jovens com tiros na cabeça. Os militares podem voltar hoje para novas buscas.

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