Soja e petróleo podem agravar déficit do Brasil Da correspondente Monica Yanakiew
Washington, 12 (AE) - Na semana passada, enquanto o preço do petróleo cru atingia os níveis mais altos dos últimos 19 meses, o preço da soja seguia trajetória inversa: despencava para os níveis mais baixos em um quarto de século, levando os produtores norte-americanos a pedir, na sexta-feira, que o governo proteja seu mercado, proibindo importações do Brasil.
"Isso tem efeito (ruim) sobre a balança comercial do Brasil"
explicou Edgar Amador, da consultora Stone & McCarthy. "Tanto é assim que estamos revendo as previsões e agora achamos que em 1999 não haverá superávit na balança comercial brasileira."
No longo prazo, no entanto, as previsões dos analistas internacionais são mais otimistas. Os preços de todas as commodities (de petróleo a grãos e metais) aumentarão por um mesmo motivo: estavam baixos demais, graças também à crise financeira internacional, e só podem subir, especialmente agora que a economia mundial começa a recuperar-se. Mas desta vez, não há pânico.
"Não estamos diante de uma crise do petróleo, como as duas que tivemos na décadas de 70 e 80, e ninguém espera grandes aumentos", explicou Amador.
O preço do barril de petróleo cru deverá aumentar um pouco mais no período de seis meses a um ano, variando, talvez, de US$ 21 a US$ 25, prevê Tom Hogarty, consultor do American Petroleum Institute (API, que representa a indústria de petróleo norte-americana). "Mas trata-se apenas de um ciclo; no longo prazo, os preços vão cair a níveis mais baixos que os atuais" observou Hogarty.
As duas crises de petróleo levaram os países dependentes a investir em novas tecnologias, para explorar áreas difíceis, como a do Mar do Norte, ou substituir gasolina or álcool, no caso do Brasil. Os preços caíram, só que mais que o previsto.
Dois invernos brandos nos Estados Unidos - onde o petróleo é utlizado também para calefação - e a crise financeira que começou na ásia em 1997 resultaram numa brutal queda do preço do petróleo, que chegou a US$ 12,73 em fevereiro. A Opep ameaçou, várias vezes, reduzir a produção, para valorizar seu produto, mas seus membros estavam divididos e nunca chegavam a um acordo.
A Venezuela é um grande exportador para os Estados Unidos, tinha um déficit fiscal importante e queria continuar vendendo para o país. Então, por que motivo iria reduzir sua participação no mercado internacional se a Arábia Saudita tinha abocanhado as fatias do Iraque (que teve suas vendas limitadas pelas Nações Unidas depois que perdeu a guerra para conquistar o Kuwait)?
"A diferença, agora, é que um mesmo fator, o déficit fiscal, une muitos países produtores de petróleo, até México e Rússia, que não fazem parte da Opep", explica Amador. "Eles poderiam estar vendendo mais para suprir a falta do produto." Foi a necessidade de equilibrar suas contas que levou a Arábia Saudita e a Venezuela a honrar o pacto de limitar a produção de petróleo para valorizar a mercadoria. Os mexicanos e russos aderiram porque todos concluem que é melhor vender pouco e caro que muito e barato.
Segundo Amador e Hogarty, o aumento do preço do petróleo será pequeno - um aumento grande acaba gerando um efeito contrário -, mas poderá elevar a inflação mundial. Nos Estados Unidos, segundo Hogarty, passaria de 2% ao ano a, no máximo, 4%. "Nada que não tenha sido previsto ou que seja preocupante", explicou.
A própria Opep anunciou que sua meta é obter entre US$ 18 e US$ 20 por barril. Segundo Ron Gold, da Petroleum Industry Research Incorporation, as mudanças mais importantes no mercado mundial do petróleo já ocorreram e, de certa forma, já foram absorvidas. "A não ser que aconteça outra guerra ou a Rússia resolva inundar o mercado com petróleo, não haverá grandes aumentos", afirmou.
A maior parte dos analistas acredita que os Estados Unidos já incorporaram, no seu recente aumento da taxa de juros, a elevação do preço do petróleo, que, na verdade, não é alto: a média de preço do barril de petróleo cru, da Segunda Guerra Mundial até 1997 (quando começou a crise asiática) foi de US$ 19 27. "Se, por um lado, o Brasil estará gastando mais importando petróleo, por outro estará lucrando com a recuperação de economias que dependiam das exportações desse produto", disse Hogarty.
No mês passado, o banco de investimentos Golman Sachs calculava que a melhoria da economia mundial resultaria num crescimento de 12% nos preços das commodities nos próximos 12 meses, de junho de 1999 a junho de 2000.
Boa parte desse desempenho seria atribuído ao aumento do preço do petróleo, que ultrapassou as previsões da Goldman Sachs (de US$ 18,5 até dezembro e possivelmente US$ 19,5 no próximo ano). Mas os preços dos metais também deveriam subir 5% e os dos produtos agrícolas, 10%.





