Antes de encher a despensa com produtos de soja para driblar os efeitos da menopausa, leia a matéria. Uma pesquisa de doutorado do ginecologista e mastologista Paulo Moreira, professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), mostra que as isoflavonas presentes no alimento têm pouco efeito contra os sintomas do climatério. Ele ressalta que a soja é um excelente alimento, rico em proteína e ácidos graxos essenciais, mas sua ação como remédio é discutível.
A idéia de que a soja poderia ser benéfica para as mulheres vem das isoflavonas, substâncias que têm estrutura e ação parecidas com o estrogênio, hormônio feminino. Chamadas de fitoestrogênios, as isoflavonas poderiam substituir, em menor escala, o hormônio que falta à mulher no climatério, o que promoveria uma reposição hormonal natural.
Outro fato que reforça a idéia do benefício, é que o alimento é base da alimentação das mulheres asiáticas, que em comparação com as ocidentais vivem tranquilamente a fase de transição entre o período reprodutivo e o não reprodutivo e têm menor incidência de câncer de mama.
O climatério - período em que começam todas as alterações hormonais, até um ano após a última menstruação, esta sim chamada de menopausa - hoje pode corresponder de 25% a 30% do total da vida de uma mulher. Daí a importância de buscar terapias para amenizar seus sintomas. A diminuição de produção do estrogênio, segundo o ginecologista, causa incômodos como palpitação, vertigens, cefaléia, ondas de calor, sudorese e irritabilidade. Além de fatores que podem atrapalhar a vida sexual da mulher, como diminuição da libido e perda de rugosidade e elasticidade da vagina, causando dor durante a relação sexual.
Há cerca de 20 anos, o tratamento médico era ministrar estrogênio em altas doses, terapia deixada de lado pela relação com o aumento dos casos de câncer de endometrio, comprovada por pesquisas. Veio então, a reposição hormonal feita com a associação de estrogênio e progesterona, também alvo de uma pesquisa da Women's Health Initiative (WHI), que mostrou o aumento da incidência de câncer de mama em 26%. ''E aí, qual a alternativa para a mulher nesse período? Uma delas seria o fitoestrogênio'', lembra o médico.
O objetivo da pesquisa de Moreira foi descobrir se a isoflavona poderia ser essa alternativa, e em que dosagens. Mas, a soja não se mostrou uma opção viável para ser usada como terapia em comparação com aquelas que não tomaram nada (confira quadro). Em compensação, o médico descobriu algo bastante interessante - que as mulheres que tomaram placebo (preparado sem efeito) tiveram resultados parecidos com aquelas que usaram soja. ''O efeito placebo é maravilhoso'', afirma.
A conclusão é que o melhor tratamento para os efeitos do climatério continua individual, com uso de hormônio dentro do ''estritamente necessário'', e tem ligação com o fato da mulher ter atenção por parte do médico. ''A mulher precisa disso, ser ouvida'', diz, lembrando que é também através da conversa que se estimula a paciente a adotar um estilo de vida mais saudável, que vai repercutir no bem-estar geral.
Moreira ressalta que sua pesquisa não incluiu possíveis benefícios do uso da soja por períodos prolongados, como nas mulheres asiáticas, que consomem o produto desde a infância. ''Se ela vem tomando soja regularmente, já é outra pesquisa'', afirma.

mockup